A biologia mal interpretada matou a economia

Título original: “How bad biology killed the economy”

http://www.emory.edu/LIVING_LINKS/empathy/Reviewfiles/RSAJournal.html

Autor: Frans de Waal

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Frans de Waal (foto Wikipédia)

Original publicado em dezembro de 2009.

Uma cultura artificial de ganância e medo pôs a economia de joelhos. Precisamos começar a jogar a favor de nossas forças pró-sociais, diz Frans de Waal

O CEO da Enron – agora na prisão – costumava aplicar a lógica do “gene egoísta” a seu capital humano, e acabou criando uma profecia autorrealizável. Assumindo que a espécie humana é motivada unicamente pela ganância e pelo medo, Jeffrey Skilling produzia funcionários que tinham essas motivações. A Enron implodiu por causa do espírito maléfico de suas políticas, e ofereceu uma prévia do que estava por atingir toda a economia mundial.

Admirador assumido da visão de evolução de Richard Dawkin, segundo a qual tudo é centrado nos genes, Skilling imitava a seleção natural dando notas de um (o melhor) a cinco (o pior) a seus empregados. Quem tinha nota cinco era mandado embora, mas antes era humilhado(a) num site com sua foto de perfil. Nessa política chamada de ‘avalie e chute’ [no original: Rank & Yank],  cada um estava perfeitamente motivado a cortar a garganta do outro, e isso resultou em uma atmosfera corporativa marcada por uma desonestidade chocante do lado de dentro da empresa, e por uma exploração implacável fora dela.

No entanto, o problema mais profundo era a visão que Skilling tinha da natureza humana. O livro da natureza é como a Bíblia: cada um lê nela o que gosta, da tolerância à intolerância, do altruísmo à ganância. Mas é bom lembrar que o fato de os biólogos estarem sempre falando de competição não significa que eles a preconizam. Quando eles chamam genes de egoístas, isso não quer dizer que os genes são realmente egoístas. Genes não podem ser mais ‘egoístas’ do que um rio pode estar ‘zangado’, ou os raios solares podem estar ‘amando’. Genes são como pedaços de DNA. Na melhor das hipóteses, eles se auto-promovem, pois os genes bem-sucedidos ajudam seu portador a espalhar mais cópias deles.

Assim como muitos antes dele, Skilling caiu com anzol, linha e vara na metáfora do gene egoísta, pensando que, se nossos genes são egoístas, nós também devemos ser. Ainda é possível perdoá-lo, pois mesmo que isso tenha sido uma má interpretação de Dawkins, é difícil separar o mundo dos genes do mundo da psicologia humana. Nossa própria terminologia deliberadamente confunde os dois.

Manter esses dois mundos separados é o maior desafio pra qualquer pessoa interessada em saber o que a evolução significa para a sociedade. Como a evolução avança por eliminação, ela é necessariamente cruel. Ainda assim, o que ela produz não precisa ser cruel, de modo algum. Muitos animais sobrevivem por serem sociais e por permanecerem juntos, e por isso não podem aplicar o princípio do direito do mais forte à risca: o forte precisa do fraco. Isso se aplica igualmente à nossa espécie, pelo menos quando deixamos os humanos exprimirem seu lado cooperativo. Assim como Skilling, muitos e muitos economistas e políticos ignoram e suprimem esse lado. Eles modelam a sociedade humana baseados na eterna luta que eles acreditam existir na natureza, e essa luta não passa de uma projeção. Igual ao mágico, eles jogam seus preconceitos ideológicos dentro da cartola da natureza, depois os puxam pra fora pela orelha pra mostrar o quanto a natureza concorda com eles. Nós caímos nesse truque há muito tempo. É claro que a competição faz parte do cenário, mas seres humanos não podem viver só de competição.

Estudo esse assunto enquanto biólogo e primatólogo. Você pode achar que um biólogo não devia enfiar o nariz em debates de políticas públicas, mas como a biologia já é uma parte do debate, é difícil ficar de fora. Quem gosta de competição aberta não consegue evitar de invocar a evolução. O mundo digital até caiu no infame ‘discurso da ganância’ de Gordon Gekko, o chefão corporativo interpretado por Michael Douglas no filme Wall Street, de 1987: “O negócio, senhoras e senhores, é que a ‘ganância’ – por falta de uma palavra melhor – é boa. Ganância é o certo. Ganância funciona. Ganância clarifica, corta caminhos e resume a essência do espírito evolutivo” [lt: traduzido do original, é possível que a tradução oficial do filme seja diferente].

Espírito evolutivo? Nas ciências sociais, a natureza humana é exemplificada pelo antigo provérbio Hobbesiano Homo homini lupus (‘o homem é o lobo do homem’), um aforismo questionável sobre nossa própria espécie baseado em falsas presunções sobre outras espécies. Um biólogo que estuda a interação entre a sociedade e a natureza humana não está fazendo nada de inédito. A única diferença é que, ao invés de tentar justificar um quadro ideológico específico, o biólogo tem um interesse real em saber o que é a natureza humana, de onde ela vem. Será que o espírito evolutivo só depende da ganância, como declarado por Gekko, ou tem mais?

Essa linha de pensamento não vem apenas de personagens fictícios. Leia uma coluna do New York Times de 2007 escrita por David Brooks, gozando dos programas sociais do governo: “Baseado no conteúdo de nossos genes, na natureza de nossos neurônios e nas lições de evolucionismo, é óbvio que a natureza está cheia de competição e conflitos de interesse”. Os conservadores adoram acreditar nisso, mas a ironia suprema desse caso de amor com a evolução é que a maioria deles não dá a mínima para a evolução de verdade.

Num recente debate presidencial, não menos do que três candidatos republicanos levantaram a mão respondendo à questão “quem não acredita em evolução?” Os conservadores americanos são darwinistas sociais, e não darwinistas de verdade. O darwinismo social é contra ajudar doentes e pobres, pois é a natureza que impõe que eles devem sobreviver por si próprios ou então perecer. Que pena que algumas pessoas não têm seguro-saúde, eles dizem, que bom pra quem pode pagar por um. Este ano, o senador Jon Kyl do Arizona deu um passo à frente – o que causou um certo escândalo na mídia e protestos em seu estado natal – ao votar contra a cobertura de saúde para maternidade. Ele explicou que ele mesmo nunca tinha precisado disso.

A lógica de a-competição-faz-bem-pra-você tem sido extraordinariamente popular desde que Reagan e Thatcher nos asseguraram que o mercado livre resolveria todos os nossos problemas. Desde o desmantelamento da economia, essa visão tem perdido força. Essa lógica pode ter sido ótima, mas sua conexão com a realidade era pequena. Os livre-mercadistas ignoraram inteiramente a natureza intensamente social de nossa espécie. Eles gostam de apresentar cada indivíduo como uma ilha, mas nós não fomos desenhados para sermos puramente individualistas. A empatia e a solidariedade fazem parte da nossa evolução – e não é só uma partezinha recente, trata-se de capacidades milenares que outros mamíferos também têm.

Muitos dos grandes avanços sociais – a democracia, os direitos iguais, a segurança social – apareceram graças ao que costumava ser chamado de ‘companheirismo’ [no original: ‘fellow feeling’]. Os revolucionários franceses cantavam a fraternité, Abraham Lincoln apelava para os laços de simpatia e Theodore Roosevelt falava com orgulho do companheirismo como “o fator mais importante para produzir uma vida política e social saudável”.

A história do fim da escravidão nos EUA é particularmente instrutiva. Lincoln escreveu para um amigo que a imagem dos escravos acorrentados não saía mais de sua cabeça após as viagens para o sul. Tais sentimentos motivaram Lincoln e muitos outros a lutar contra a escravidão. Veja o debate atual sobre a saúde pública nos EUA, em que a empatia aparece em destaque, ela influencia a maneira com a qual respondemos à infelicidade de pessoas que foram negadas pelo sistema, ou que perderam o acesso ao seguro. E o termo que usamos: ‘cuidado de saúde’ [no original: healthcare] – não chamamos de ‘indústria da saúde’ – mostra o quanto os seres humanos se preocupam uns com os outros.

Primatas morais?

Claro que a natureza humana não pode ser estudada se for separada da natureza em geral, e é aí que entra a biologia. Se olharmos para a nossa espécie sem nos deixar cegar pelos avanços técnicos dos últimos poucos milênios, veremos uma criatura de  carne e osso com um cérebro que é três vezes maior do que o de um chimpanzé, mas que não contém nenhuma parte nova. Nosso intelecto pode ser superior, mas não temos nenhum desejo ou necessidade que não possa ser observado em nossos parentes evolutivos. Assim como nós, eles lutam por poder, têm prazer no sexo, querem segurança e afeto, matam por território e valorizam a confiança e a cooperação. Sim, nós usamos telefone celular e voamos em aviões, mas o nosso quadro psicológico é essencialmente o de um primata social. Não digo que os outros primatas são seres morais, mas não é difícil reconhecer os pilares da moral no comportamento deles. Esses pilares convergem na direção da nossa regra de ouro, a qual transcende culturas e religiões pelo mundo todo. “Faça aos outros o que você quer que façam a você” combina empatia (atenção aos sentimentos do outro) e reciprocidade (se os outros seguirem a mesma regra, você será bem tratado(a)). A moral humana não existiria sem empatia e reciprocidade – e essas tendências são encontradas em nossos amigos primatas.

Quando um chimpanzé acaba de ser atacado por outro, por exemplo, um chimpanzé que viu a cena vai se aproximar e abraçar a vítima com carinho, até que ela ou ele pare de soluçar. A tendência a consolar é tão forte que Nadia Kohts, essa cientista russa que criou um chimpanzé desde pequeno há um século, conta que quando sua cria fugia pra cima do telhado da casa, só havia uma maneira de fazê-lo descer. Mostrar comida não funcionava; a única forma que ela encontrou foi sentar e choramingar, como se ela estivesse sentindo alguma dor. O macaquinho descia na hora e punha um braço em torno dela. A empatia do nosso priminho era maior do que seu desejo por uma banana.

O consolo foi extensivamente estudado baseado em centenas de casos por ser um comportamento comum e previsível em macacos. Da mesma forma, a reciprocidade é visível quando a gente vê que os chimpanzés dividem comida especificamente com os que  recentemente fizeram alguma gentileza ou ajudaram numa luta por poder. Freqüentemente o sexo faz parte também. Já se observou que machos selvagens invadem plantações de mamão – o que representa risco de vida para eles – visando obter esse fruto delicioso para fêmeas férteis em pagamento por sexo. Os chimpanzés sabem como conseguir as coisas.

Também existem evidências de tendências pró-sociais e de um senso de justiça. Os chimpanzés abrem voluntariamente uma porta para deixar um companheiro ter acesso à comida, e o macaco-prego tenta fazer com que outros ganhem uma recompensa mesmo quando ele mesmo não ganha nada por isso. Demonstramos isso ao colocar dois macacos lado a lado: separados, mas podendo se ver. Um deles precisa negociar conosco nos dando peças de plástico. O teste crítico é quando damos a ele a escolha entre duas peças cujo significado é definido pela cor: uma peça é a ‘egoísta’, a outra é ‘pró-social’. Se o macaco negociador escolhe a peça egoísta, ele recebe um pedaço de maçã em retorno, mas seu parceiro não ganha nada. Com a peça pró-social, ele faz com que os dois recebam a mesma coisa ao mesmo tempo. Os macacos desenvolveram uma grande preferência pela peça pró-social.

Repetimos o procedimento muitas vezes com diferentes pares de macacos e diferentes combinações de peças, e descobrimos que os macacos seguiam escolhendo a opção pró-social. E isso não tinha base em nenhuma preocupação com o que poderia acontecer depois, pois descobrimos que os macacos mais dominantes (os que têm menos a temer) eram os mais generosos. Mais provavelmente, ajudar os outros é recompensador, assim como humanos se sentem bem quando fazem o bem.

Em outros estudos, os primatas adoravam executar uma tarefa em troca de fatias de pepino, até que eles viam outros recebendo uvas, que são muito mais gostosas. Eles começavam a se agitar, jogavam seus pepinos longe e faziam greve. O simples fato de ver um companheiro ganhar uma coisa melhor fez com que o pepino perdesse o gosto. Sempre penso nessa reação quando ouço críticas aos bônus de Wall Street. [lt: o autor não menciona que todos os chimpanzés desses estudos têm suas necessidades básicas satisfeitas, o que não é o caso de todos os norte-americanos].

Você não acha que esses primatas demonstram traços iniciais de ordem moral? Muitas pessoas, no entanto, preferem olhar pra base ‘sangue nos dentes’ deles. Nunca há dúvida alguma sobre a continuidade entre humanos e outros animais quando a questão é o comportamento negativo: quando humanos brigam e matam uns aos outros, os chamamos imediatamente de ‘animais’,  mas preferimos guardar os traços mais nobres para nós mesmos. No entanto, quando a questão é estudar a natureza humana, essa estratégia se mostra ineficaz porque ela exclui quase a metade da nossa bagagem. Sem intervenção divina, esse lado mais atraente do nosso comportamento também é fruto da evolução, e esta visão tem cada vez mais apoio da ciência animal.

Todos conhecem a maneira com que mamíferos reagem às nossas emoções e como reagimos às deles. Isso cria um tipo de ligação que faz com que milhões de nós criem cães e gatos, ao invés de iguanas e tartarugas. Estes são tão fáceis de criar quanto aqueles, mas não têm a mesma empatia que necessitamos tanto.

Há cada vez mais estudos sobre a empatia animal, incluindo estudos sobre como roedores são afetados pela dor de outros. Camundongos de laboratório se tornam mais sensíveis à dor quando vêm outro camundongo sofrer. O contágio de dor acontece entre camundongos que vivem na mesma caixa, mas não entre camundongos que não se conhecem. Esse é um desvio típico, e também acontece com a empatia humana: quanto mais próximos somos de alguém, quanto mais semelhantes somos a eles, mais facilmente a empatia se instala.

A empatia tem suas raízes na mímica corporal básica – e não nas regiões mais superiores da imaginação ou na habilidade em reconstruir conscientemente como nos sentiríamos no lugar do outro. Começou com a sincronização de corpos: correr quando os outros correm; rir quando os outros riem; chorar quando os outros choram; bocejar quando os outros bocejam. A maioria de nós alcançou um estágio tão incrivelmente avançado que bocejamos com a simples menção de bocejar, mas isso só acontece depois de anos e anos de experiência face a face.

O bocejo também é contagiante em outras espécies. Na Universidade de Kyoto, cientistas mostraram vídeos de macacos bocejando a macacos selvagens. Em pouco tempo os chimpanzés do laboratório estavam bocejando como loucos. Com nossos próprios chimpanzés, fomos um passo adiante. Ao invés de mostrar chimpanzés reais a eles, mostramos animações 3D de uma cabeça parecida com a de um macaco se movendo como em um bocejo. Em resposta a esses bocejos de desenho, nossos macacos bocejaram com máxima abertura da boca, fechando os olhos e virando a cabeça, como se fossem cair no sono a qualquer momento.

O contágio do bocejo reflete o poder da sincronia inconsciente, tão enraizada em nós quanto em outros animais. A sincronia se expressa na imitação de pequenos movimentos corporais, tais como o bocejo, mas também acontece em escala maior. Não é difícil perceber sua importância para a sobrevivência. Você faz parte de uma nuvem de pássaros e de repente um deles sai voando. Você não tem tempo de tentar descobrir o que está acontecendo, por isso você decola no mesmo instante. Se não fizer isso, pode virar almoço.

O contágio de humor serve para coordenar atividades, e isso é crucial para qualquer espécie que viaja (assim como a maioria dos primatas). Se os meus companheiros estão se alimentando, eu decido fazer a mesma coisa porque quando eles sairem andando, não terei mais oportunidade para me alimentar. O indivíduo que não se sintoniza com os outros acaba perdendo, igual ao passageiro que não vai ao WC quando o ônibus faz uma parada.

Criaturas sociais

A seleção natural produziu animais altamente sociais e cooperativos que precisam uns dos outros para sobreviver. Quando está sozinho, um lobo não consegue pegar uma presa grande, e é sabido que os chimpanzés na floresta andam mais devagar quando um dos companheiros está machucado ou tem filhotes doentes e por isso não consegue andar no passo normal. Então, por que aceitar essa idéia de natureza assassina quando há tanta prova do contrário?

A biologia mal interpretada exerce uma atração irresistível. Os que pensam que a competição é o único objetivo da vida, e que acreditam que o forte deseja sobreviver fazendo o fraco sofrer, adotam imediatamente o darwinismo como uma linda ilustração de sua ideologia. Eles descrevem a evolução – ou pelo menos a versão resumida que eles têm – como quase paradisíaca. John D Rockefeller concluiu que o crescimento de um grande negócio “é o mero trabalho de uma lei da natureza e uma lei de Deus”, e Lloyd Blankfein, representante e CEO da Goldman Sachs – a maior máquina de fazer dinheiro do mundo – recentemente se descreveu como alguém que “executa a obra de Deus”.

Temos tendência a pensar que a economia foi assassinada pelas decisões arriscadas irresponsáveis, pela falta de regulação ou pelo mercado imobiliário inflacionário, mas o problema é mais embaixo. Esses eram só os aviõezinhos em torno da cabeça do King Kong (“Ah, não, não foram os aviões. Foi a beleza que matou a fera”). A maior culpa é do uso da biologia mal interpretada, que resultou numa simplificação grosseira da natureza humana. A confusão entre como opera a seleção natural e que tipo de criaturas ela produziu levou a uma negação dos laços entre pessoas. A própria sociedade começou a ser vista como uma ilusão. Como declarado por Margaret Thatcher: “não existe sociedade – existem homens e mulheres individuais, e existem famílias”.

Os economistas deviam reler o trabalho de sua figura paterna, Adam Smith, que via a sociedade como uma grande máquina. Suas engrenagens são polidas pela virtude, enquanto que o vício faz com que emperrem. A máquina não vai funcionar direito sem um forte senso de comunidade em cada cidadão. Smith via honestidade, moral, simpatia e justiça como companheiras essenciais da mão invisível do mercado. Sua visão se baseava no fato de sermos uma espécie social, de nascermos em uma comunidade com responsabilidades sobre a comunidade.

Ao invés de cair em idéias falsas sobre a natureza, por que não prestamos atenção no que realmente sabemos sobre a natureza humana e sobre o comportamento de nossos parentes próximos? A mensagem da biologia é que somos animais coletivos: intensamente sociais, interessados na justiça e suficientemente cooperativos para ter tomado controle do mundo. Nossa grande força é precisamente nossa habilidade em superar a competição. Por que não desenhar a sociedade de forma a exprimir essa força em todos os níveis?

Ao invés de colocar os indivíduos uns contra os outros, a sociedade precisa analisar as dependências mútuas. Vimos isso no recente debate sobre saúde nos EUA, em que os políticos jogaram a carta do interesse mútuo, apontando o quanto todos (incluindo os que vão muito bem) perderá se a nação não conseguir mudar o sistema, enquanto o presidente Obama jogava a carta da responsabilidade social, chamando a necessidade de mudança de “obrigação ética e moral fundamental”. Não podemos permitir que ganhar dinheiro se torne a única motivação da sociedade.

E para aqueles que continuam procurando respostas na biologia, a questão fundamental, ainda que raramente levantada, é por que a seleção natural desenhou nossos cérebros de forma  a nos sintonizar com nossos próximos e a nos fazer sentir mal quando eles estão mal, sentir prazer quando eles têm prazer. Se a única prioridade fosse a exploração dos outros, a evolução nunca devia ter se metido com essa história de empatia. Mas ela se meteu, e é melhor que as elites políticas e econômicas se dêem conta disso logo.


Frans de Waal é professor titular de psicologia na Universidade Emory e diretor do Living Links Center no Yerkes National Primate Research Center. Ele é autor de nove livros, incluindo Chimpanzee Politics e Eu Primata (Our Inner Ape). Seu último livro, A Era da Empatia (The Age of Empathy), foi publicado pela Harmony Books.

 

Neoliberalismo – a ideologia que é a raiz de todos os nossos problemas

Título original: “Neoliberalism – the ideology at the root of all our problems”

https://www.theguardian.com/books/2016/apr/15/neoliberalism-ideology-problem-george-monbiot?CMP=share_btn_fb

Autor: George Monbiot

Original publicado em 15/04/2016

Crise financeira, desastre ecológico e até o crescimento de Donald Trump – o neoliberalismo participou em tudo isso. Mas por que a esquerda não conseguiu apresentar uma alternativa?

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“Não há alternativa”… Ronald Reagan e Margaret Thatcher na Casa Branca. Fotografia: Rex Features

Imagine se o povo da União Soviética nunca tivesse ouvido falar em comunismo. Para a maioria de nós, a ideologia que domina nossas vidas não tem nome. Mencione isso numa conversa se quiser ganhar caretas. Mesmo se quem participar da conversa tiver ouvido o termo antes, a pessoa terá dificuldade em definí-la. Neoliberalismo: você sabe o que é isso?

Esse anonimato é, ao mesmo tempo, um sintoma e a razão de tanto poder que o neoliberalismo tem. Ele desempenhou um papel importante numa impressionante variedade de crises: a crise financeira de 2007-8, a fuga de capital e de poder, isso que os Panama Papers nos deixaram apenas entrever, o lento colapso da saúde e da educação públicas, o reaparecimento da pobreza infantil, a epidemia de solidão,  o colapso de vários ecossistemas, o crescimento de Donald Trump. Mas nós reagimos a essas crises como se elas fossem casos isolados, como se não soubéssemos que todas elas foram catalisadas ou exacerbadas pela mesma filosofia coerente; uma filosofia que tem – ou tinha – um nome. Quer maior poder do que esse de algo que opera sem nome?

O neoliberalismo se tornou tão presente que raramente o reconhecemos como uma ideologia. Parece que aceitamos a proposta de que essa fé utópica milenar descreve uma força neutra; um tipo de lei biológica, como a Teoria de Darwin sobre a evolução [lt: um artigo do leconnector de 2013 também menciona essa associação]. Mas essa filosofia surgiu de uma tentativa bem consciente de se formatar a vida humana e mudar o locus do poder.

O neoliberalismo vê a competição como uma característica que define as relações humanas. Ele redefine cidadãos como consumidores cujas escolhas democráticas são exercidas em seu máximo em compras e vendas, num processo que recompensa o mérito e pune a ineficiência. Ele insiste que “o mercado” traz benefícios que nunca poderiam ter sido adquiridos com planejamento.

Quem tenta limitar a competição é tratado de inimigo da liberdade. A idéia é minimizar impostos e regulações, e privatizar serviços públicos. Organizar o trabalho e negociar de forma coletiva com sindicatos são distorções do mercado que impedem a formação dessa hierarquia natural de vencedores e perdedores. A desigualdade é pintada como virtuosa: uma recompensa pela utilidade e uma geradora de riquezas, que vai acabar enriquecendo todos. Cada esforço em criar uma sociedade mais igualitária é contraprodutivo e moralmente corrosivo. É o mercado que garante que cada um recebe o que merece.

E nós incorporamos e reproduzimos esses princípios. Os ricos se convencem  [lt: putz outro artigo que merece ser traduzido… veja também a historinha do Banco Imobiliário trucadode que a riqueza que têm foi obtida por mérito próprio, esquecendo algumas vantagens – tais como educação, herança e classe –  que podem ter ajudado. Os pobres começam a se culpar por suas próprias falhas, mesmo quando pouco podem fazer pra mudar as circunstâncias.

Esqueça o desemprego estrutural: se você não tem um emprego é porque não tem iniciativa. Esqueça os custos impossíveis da moradia: se o seu cartão está estourado, é porque você é fraco e irresponsável. Esqueça que seus filhos não têm mais ginásio de esportes  na escola: se eles engordarem, a culpa é sua. Num mundo governado pela competição, os que ficam pra trás são definidos e auto-definidos como perdedores.

Os resultados, como Paul Verhaeghe documenta em seu livro Mas e eu? [lt: tradução livre de What About Me?] são epidemias de baixa auto-estima, desordens alimentares, depressão, solidão, ansiedade e fobia social. Talvez não seja tão surpreendente assim que a Grande Bretanha, onde a ideologia neoliberal tem sido aplicada de forma mais rigorosa, seja a capital européia da solidão. Agora somos todos neoliberais.

***

O termo neoliberalismo foi cunhado numa reunião de 1938 em Paris. Entre os delegados estavam dois homens que acabaram definindo a ideologia, Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Ambos exilados da Áustria, eles viam a democracia social, exemplificada pelo New Deal de Franklin Roosevelt, e o desenvolvimento gradual do Estado Providência inglês como manifestações de um coletivismo que ocupava o mesmo espectro que o nazismo e o comunismo.

Em A Estrada para a Servidão [lt: tradução livre de The Road to Serfdom], publicado em 1944, Hayek argumentava que o planejamento governamental, ao esmagar o individualismo, levaria inexoravelmente a um controle totalitário. Assim como no livro Bureaucracy de Mises, A Estrada para a Servidão teve muitos leitores. Muitas pessoas muito ricas deram atenção a ele, e essas pessoas viram essa filosofia como uma oportunidade para se livrarem de regulações e impostos. Em 1947, quando Hayek fundou a primeira organização que espalharia a doutrina do neoliberalismo – a Mont Pelerin Society -, ele obteve suporte financeiro de vários milionários e de suas fundações.

Foram eles que o ajudaram o que Daniel Stedman Jones descreve como “um tipo de internacional neoliberal” em Mestres do Universo [lt: yes, Masters of the Universe é o título original]: uma rede transatlântica de acadêmicos, homens de negócios, jornalistas e ativistas. Os ricos apoiadores do movimento fundaram uma série de usinas de idéias com o objetivo de refinar e promover a ideologia. Entre elas estavam the American Enterprise Institutethe Heritage Foundationthe Cato Institutethe Institute of Economic Affairsthe Centre for Policy Studies e the Adam Smith Institute. Também foram eles que financiaram posições e departamentos acadêmicos, particularmente nas universidades de Chicago e de Virgínia.

Conforme foi evoluindo, o neoliberalismo foi se tornando mais agressivo. A visão de Hayek de que os governos deviam regular a competição para evitar a formação de monopólios desapareceu – com o apoio de apóstolos americanos tais como Milton Friedman –  e deu lugar à crença de que o poder monopolizador poderia ser visto como uma recompensa pela eficiência.

Algo mais aconteceu durante essa transição: o movimento perdeu o nome. Em 1951, Friedman se orgulhava de se descrever como um neoliberal.  Mas pouco depois, o termo começou a desaparecer. O curioso é que, enquanto a ideologia se tornou mais ferrenha e o movimento, mais coerente, o nome perdido não foi substituído por nenhuma alternativa comum.

Em primeiro lugar, apesar da sua fundação suntuosa, o neoliberalismo permaneceu nas margens. O consenso pós-guerra era quase universal: as prescrições econômicas de John Maynard Keynes eram amplamente aplicadas, os objetivos dos EUA e de quase toda a europa ocidental eram dar emprego para todos e diminuir a pobreza, os impostos sobre os ricos eram altos e os governos procuravam resultados sociais sem embaraço, desenvolvendo novos serviços públicos e redes de segurança.

Mas nos anos 70, quando as políticas keynesianas começaram a se despedaçar e crises econômicas começaram a aparecer nos dois lados do Oceano Atlântico, as idéias neoliberais começaram a se tornar mainstream. Como Friedman reparou, “quando chegou o tempo em que você tinha que mudar… havia uma alternativa pronta pra ser adotada”. Com a ajuda de jornalistas e conselheiros políticos simpáticos à idéia, os elementos do neoliberalismo, especialmente suas recomendações quanto à política monetária, foram adotados pela administração Jimmy Carter nos EUA e pelo governo de Jim Callaghan na Grande Bretanha.

Depois que Margaret Thatcher e Ronald Reagan ganharam o poder, o resto do pacote apareceu rápido: cortes enormes de impostos para os ricos, esmagamento de sindicatos, desregulação, privatização, terceirização e competição em serviços públicos. Com o FMI, o Banco Mundial, o tratado de Maastricht e a Organização Mundial do Comércio, as políticas neoliberais foram impostas – freqüentemente sem consentimento democrático – em boa parte do mundo. O mais impressionante foi sua adoção entre partes que antes pertenciam à esquerda: o Labor Party e os democratas, por exemplo. Como notado por Stedman Jones, “é difícil pensar em outra utopia que tenha sido realizada tão inteiramente”.

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Pode parecer estranho que uma doutrina que promete escolha e liberdade tenha sido promovida com o slogan “não há alternativa”.  Mas, como Hayek destacou numa visita ao Chile de Pinochet – uma das primeiras nações a aplicar o programa de forma extensiva – “minha preferência pessoal se inclina em direção a uma ditadura liberal, mais do que para um governo democrático sem liberalismo”. A liberdade que o neoliberalismo oferece, essa que soa tão sedutora quando expressada em termos gerais, significa liberdade pros peixões, não para os peixinhos.

Estar livre de sindicatos e negociações coletivas significa estar livre para diminuir salários. Estar livre de regulações significa estar livre para envenenar rios [lt: lembranças de Mariana], pôr empregados em perigo, cobrar taxas de juros ridículas e desenhar instrumentos financeiros exóticos. Estar livre de impostos significa não precisar distribuir riquezas pra tirar pessoas da pobreza.

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Naomi Klein documentou que neoliberais usam as crises para impor políticas impopulares enquanto as pessoas pensam em outra coisa. Fotografia: Anya Chibis para The Guardian

Assim como documentado por Naomi Klein em A Doutrina de Choque [lt: The Shock Doctrine],  os teóricos neoliberais defendem o uso de crises para impor políticas impopulares enquanto as pessoas estão pensando em outra coisa: por exemplo, logo depois do golpe de Pinochet, da guerra no Iraque e do furacão Katrina, o qual Friedman descreveu como “uma oportunidade para reformar radicalmente o sistema educational” em Nova Orleans.

Nos lugares em que as políticas neoliberais não conseguem se impor por dentro, elas são impostas com pressão internacional,  através de tratados de comércio que incorporam “acordos sobre disputas investidor-estado“: tribunais internacionais nos quais as corporações podem fazer pressão pela remoção de proteções sociais e ambientais. Quando os parlamentos votam para restringir a venda de cigarros, proteger os aquíferos das mineradoras, congelar contas de energia ou evitar que companhias farmacêuticas levem o estado à falência, as corporações vão à justiça, e muitas vezes ganham. A democracia virou teatro.

Outro paradoxo do neoliberalismo é o de que a competição universal depende da quantificação e da comparação universais. O resultado é que trabalhadores, pessoas em busca de emprego e serviços públicos de todos os tipos são sujeitos a um regime esquisito e sufocante de análises e monitoração, desenhado para identificar os vencedores e punir os perdedores. A doutrina de Von Mises propunha nos libertar do pesadelo burocrático do planejamento central, mas ao invés disso criou um.

O neoliberalismo pode não ter sido concebido para ser uma enganação que se auto-sustenta, mas rapidamente se tornou isso. O crescimento econômico foi bem mais lento na era neoliberal (desde 1980 na Grande Bretanha e nos EUA) que nas décadas precedentes; mas não para os muito ricos. A desigualdade na distribuição, tanto da riqueza quanto do lucro, após 60 anos de declínio, cresceu rapidamente nesta era, devido ao esmagamento de sindicatos, redução de impostos, aumento de aluguéis, privatizações e desregulação.

A privatização ou mercantização de serviços públicos tais como energia, água, transporte ferroviário, saúde, educação, estradas e prisões permitiu às corporações instalarem pedágios na frente de benefícios essenciais e cobrar aluguel, seja dos cidadãos ou do governo, para poder usá-los. Aluguel é outro nome para renda não merecida. Quando você paga mais caro por uma passagem de trem, só uma parte do preço vai pra pagar o operador pelo combustível, salários, uso de máquinas e outras despesas. O restante reflete o fato de que eles fazem o que querem com você.

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No México, Carlos Slim ganhou o controle sobre quase todos os serviços de telefonia e logo se tornou o homem mais rico do mundo. Fotografia: Henry Romero/Reuters

Quem possui e controla os serviços privatizados ou semi-privatizados do Reino Unido ganha fortunas enormes investindo pouco e cobrando muito. Na Rússia e na Índia, os oligarcas adquiriram ativos do governo em leilões. No México, Carlos Slim obteve o controle sobre quase todos os serviços de telefonia fixos e móveis, e rapidamente se tornou o homem mais rico do mundo.

A universalização das finanças, como Andrew Sayer nota em Por Que os Ricos São Caros Demais [lt: traduzindo Why We Can’t Afford the Rich], teve um impacto similar. “Como o aluguel,” ele argumenta, “os juros são… renda não merecida que cresce sem esforço algum”. Enquanto os pobres se tornam mais pobres e os ricos, mais ricos, os ricos adquirem cada vez mais controle sobre outro ativo crucial: o dinheiro. Pagamentos de juros, por revoltante que pareça, são uma transferência de dinheiro do pobre para o rico. Enquanto os preços de propriedades e a retirada de financiamento estatal enchem as pessoas de dívidas (pense na mudança de ajudas a estudantes a empréstimos a estudantes), os bancos e seus executivos fazem a festa.

Sayer argumenta que as quatro últimas décadas foram caracterizadas pela transferência de riquezas não somente dos pobres para os ricos, mas dentro das classes de ricos: desses que ganham dinheiro produzindo novos produtos ou serviços para aqueles que ganham dinheiro controlando ativos existentes e colhendo aluguel, juros ou ganhos de capital. A renda merecida foi suplantada pela renda não merecida.

Em todo lugar, as políticas neoliberais são marcadas for falhas de mercado. Não são só os bancos que são grandes demais para falir, agora as corporações que fornecem serviços públicos também são. Assim como Tony Judt destacou em A Terra Está Doente [lt: do original Ill Fares the Land], Hayek se esqueceu que não se pode deixar que os serviços nacionais entrem em colapso, o que quer dizer que a competição não pode acontecer. A finança fica com o lucro, o estado fica com o risco.

Quanto maior o fracasso, maior o extremismo da ideologia. Os governos usam as crises neoliberais como desculpa e também como oportunidade para cortar impostos, privatizar os serviços públicos que ainda existem, abrir buracos na rede de segurança social, desregular as corporações e re-regular os cidadãos. O estado que se auto-odeia agora enterra os próprios dentes em cada órgão do setor público.

Talvez o impacto mais perigoso do neoliberalismo não seja as crises econômicas que ele causou, mas as crises políticas. Como o domínio estatal é reduzido, nossa capacidade de mudar o curso de nossas vidas com o voto também se contrai. Ao invés disso, como ditado pela teoria neoliberal, as pessoas podem exercer seu poder de escolha gastando dinheiro. Mas alguns têm mais pra gastar do que outros: nessa grande democracia do consumidor ou acionista, os votos não são igualmente distribuídos. O resultado é a perda de poder dos pobres e médios. Como os partidos da direita e da antiga esquerda adotam políticas neoliberais similares, essa perda de poder se transforma em perda de credibilidade. Um grande número de pessoas simplesmente desistiu da política.

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Slogans, símbolos e sensação… Donald Trump. Fotografia: Aaron Josefczyk/Reuters

Chris Hedges observa que “os movimentos fascistas construíram suas bases, não sobre os politicamente ativos, mas sobre os politicamente inativos, os ‘perdedores’ que sentiam, e muitas vezes com razão, que não tinham voz ou papel a desempenhar no cenário político”. Quando o debate político deixa de fazer sentido para nós, as pessoas começam a reagir a slogans, símbolos e sensação. Para os admiradores de Trump, por exemplo, os fatos e os argumentos parecem irrelevantes.

Judt explicou que quando a densa rede de interações entre pessoas e estado se reduziu a nada além de autoridade e obediência, a única força restante para nos unir é o poder estatal. O totalitarismo que Hayek temia tem mais chances de surgir quando os governos, agora sem a autoridade moral que tinham pela entrega de serviços públicos, são reduzidos a “gozação, ameaças e por último coerção para que as pessoas os obedeçam”.

***

Assim como o comunismo, o neoliberalismo é o Deus fracassado. Mas a doutrina zumbi resiste, em parte por causa de seu anonimato. Ou melhor, um conjunto de anonimatos.

A doutrina invisível da mão invisível tem promotores invisíveis. Devagar, bem devagarinho, começamos a descobrir os nomes de alguns deles. Descobrimos que o Institute of Economic Affairs, que argumentou com toda a força na mídia contra maiores regulações da indústria do tabaco, tem sido secretamente financiado pela British American Tobacco desde 1963. Descobrimos que Charles e David Koch, dois dos homens mais ricos do mundo, fundaram o instituto que fundou o movimento Tea Party. Descobrimos que Charles Koch, quando estabeleceu uma de suas usinas de idéias, disse que “visando evitar críticas indesejáveis, não devemos anunciar publicamente a forma de controle e direção da organização”.

As palavras usadas pelo neoliberalismo freqüentemente consolam, mais do que elucidam. “O mercado” soa como um sistema natural que nos toca com igualdade, como a gravidade ou a pressão atmosférica. Mas é regido por relações de poder. “O que o mercado quer” costuma querer dizer o que as corporações e seus chefes querem. “Investimento”, como notado por Sayer, significa duas coisas completamente diferentes. Uma é o financiamento de atividades úteis, produtivas e sociais, a outra é a compra de ativos para tirar benefício do aluguel, dos juros, dos dividendos e dos ganhos de capital. O uso da mesma palavra para atividades diferentes “camufla as fontes de riqueza”, o que nos leva a confundir extração de riqueza com criação de riqueza.

Um século atrás, os novos ricos eram desprezados por quem tinha herdado seu dinheiro. Empreendedores buscavam aceitação social quando passavam a alugar alguma coisa. Hoje em dia, a relação se inverteu: os que alugam e os que herdaram querem parecer empreendedores. Declaram merecer a renda não merecida.

Esses anonimatos e confusões se misturam com a falta de nomes e de lugares do capitalismo moderno: o modelo de franqueza que assegura que os trabalhadores não sabem quem ganha com seu trabalho; companhias registradas através de uma rede de regimes secretos internacionais que é tão complexa que nem a polícia consegue descobrir o verdadeiro proprietário; arranjos de impostos que dão o nó em tudo o que é governo; produtos financeiros que ninguém entende.

O anonimato do neoliberalismo é protegido com altos muros. Quem é influenciado por Hayek, Mises e Friedman tende a rejeitar o termo, e insiste – com alguma justiça – que o termo é usado hoje apenas de forma pejorativa. Mas eles também não nos dão outro termo pra usar. Alguns se definem como liberais clássicos ou libertários, mas estas definições confundem e também servem para os desculpar, como se estivessem sugerindo que não há nada de novo em A Estrada Para a Servidão, Bureaucracy ou o trabalho clássico de Friedman, Capitalismo e Liberdade [lt: traduzindo Capitalism and Freedom].

***

Depois de tudo isso, há algo admirável no projeto neoliberal, pelo menos em seus estágios iniciais. Tratava-se de uma filosofia distinta e inovadora, promovida por uma rede coerente de pensadores e ativistas com um claro plano de ação. Ela foi paciente e persistente. A Estrada para a Servidão se tornou o cominho para o poder.

O triunfo do neoliberalismo também reflete a falência da esquerda. Quando a economia do laissez-faire levou à catástrofe em 1929, Keynes desenhou uma complexa teoria econômica para substituí-la. Quando o gerenciamento keynesiano da demanda chegou ao limite nos anos 70, havia uma alternativa pronta. Mas quando o neoliberalismo caiu aos pedaços em 2008 havia… nada. E é por isso que o zumbi continua caminhando. A esquerda e o centro não produziram nenhum quadro geral de pensamento econômico nos últimos 80 anos.

Cada invocação de Lord Keynes é uma confissão de erro. Propor soluções keynesianas às crises do século 21 é ignorar três problemas óbvios. É difícil mobilizar pessoas com idéias velhas; as falhas expostas nos anos 70 não desapareceram; e o mais importante, ninguém diz nada sobre nosso problema mais grave: a crise ambiental. O keynesianismo funciona estimulando a demanda de consumo para promover o crescimento econômico. A demanda de consumo e o crescimento econômico são os motores da destruição ambiental.

O que as histórias, tanto do keynesianismo quanto do neoliberalismo, mostram, é que propor um sistema quebrado não é suficiente. É preciso propor uma alternativa coerente. Para o Labour Party, os Democratas e a extrema esquerda, a tarefa central devia ser desenvolver um programa Apollo da economia, uma tentativa consciente de desenhar um sistema novo, baseado nas necessidades do século 21.

Propaganda de um livro em Inglês no final do artigo original :

 George Monbiot’s How Did We Get into This Mess? is published this month by Verso. To order a copy for £12.99 (RRP £16.99) ) go to bookshop.theguardian.comor call 0330 333 6846. Free UK p&p over £10, online orders only. Phone orders min p&p of £1.99.

Uma cidade feita para os meninos

Título original: “Une ville faite pour les garçons”
https://lejournal.cnrs.fr/billets/une-ville-faite-pour-les-garcons
Autor: Yves Raibaud (geógrafo)
Original publicado em 21/03/2014

(Introdução do site do Jornal do CNRS: “No Top 10 deste verão. Neste texto, o maior sucesso do nosso site, o geógrafo Yves Raibaud afirmava que tudo é feito para favorecer a presença de meninos na cidade, e isso desde a pequena infância.)

Em Paris, Toulouse, Bordeaux e Montpellier, os garotos são os usuários predominantes da cidade. É o que mostram vários estudos que realizamos entre 2010 e 2013(1) a respeito dos recursos públicos culturais ou de lazer para jovens. Esses estudos também expõem uma grande desigualdade na atribuição de recursos pelas coletividades territoriais e pelo Estado com respeito ao lazer dito feminino (ginástica, dança etc.) ou masculinos (skate, futebol etc.). ‘As vezes, essas desigualdades são construídas implicitamente pelos modos de gestão de uma cidade feita “pelos homens e para os homens”. Ao mesmo tempo, as garotas são aconselhadas a não fazer jogging nos lugares isolados, sempre se manter alerta no transporte público e evitar alguns bairros…

O objetivo seria canalizar a violência dos garotos

Nosso primeiro estudo mostra que as garotas a partir da 6a série abandonam as atividades de lazer esportivo, cultural ou geral propostas pelas municipalidades ou associações mandatárias. Enquanto que a oferta de lazer se diz neutra, mas, na realidade, se destina aos garotos (pistas de skate, quadras poliesportivas, atividades ligadas às “culturas urbanas” etc.). Simplesmente porque, mesmo se o futebol e o skate não são reservados aos meninos, é preciso reconhecer que é o uso que consacra uma prática. Para justificar essa desigualdade no financiamento de lazer público, vereadores e responsáveis municipais lembram sempre que seu objetivo principal é de canalizar a violência dos jovens com atividades positivas, sem precisar dizer que os que “causam problemas” são os meninos.

Nossos espaços urbanos são freqüentemente construídos pelos homens e para os homens (Direitos da imagem: APPLY PICTURES/ PLAINPICTURE)

“As meninas preferem ficar em casa”

Essa desigualdade devia aparecer como uma preocupação prioritária se quisermos lutar contra a desigualdade estrutural que ela gera: mulheres menos inseridas na cidade e em seu ambiente social e profissional. Ora, o que nossos estudos apontam como prova de uma enorme injustiça é tratado como “natural” ou “inevitável”. Entrevistas dos funcionários e vereadores ou responsáveis de políticas da juventude mostram como esse fenômeno é constantemente banalizado: “as meninas são mais maduras, sabem encontrar o que fazer, elas preferem ficar em casa”, ou “o mais importante é ocupar os jovens mais difíceis, os que têm problemas de escolaridade, antes que eles entrem numa errada. (2)

O espaço urbano é construído por homens

Outro estudo nosso mostra que essas desigualdades se encontram no modo de gestão da cidade. De fato, a presença de mulheres nos postos importantes é fraca, tanto na câmara de vereadores como nos grupos de pessoas que pensam e constroem a cidade de amanhã: os arquitetos, urbanistas, diretores de serviços e os que desenham os programas urbanos são quase exclusivamente homens. A participação cidadã (conselhos de bairro, pesquisas públicas ou operações de diálogo) é geralmente dominada por homens. Algumas cidades da França organizam “marchas femininas de exploração”, as quais expõem outras visões da cidade, as quais sempre surpreendem por serem radicalmente diferentes do que é geralmente preconizado.

Dizem que basta que as mulheres ocupem a cidade

Nosso estudo em andamento interroga sobre as boas práticas de uma cidade sustentável baseada sobre o ângulo do gênero. Por exemplo, o ciclismo é predominantemente masculino (60% de homens), principalmente quando chove ou à noite (até 80%).

As mulheres têm menos domínio sobre a cidade e as inovações não compensam essa desigualdade

Mais do que isso, andar a pé, dividir o carro e usar o transporte público (freqüentemente riscos de assédio para as meninas e mulheres) também são atitudes tipicamente masculinas. Como resolver isso? Sempre ouvimos dizer que os recursos esportivos são feitos para todos e que basta que as mulheres tenham a iniciativa de usá-los… bom, também diz-se que as mulheres é que têm que se adaptar à cidade, e não que as novas práticas é que têm que se interrogar sobre as discriminações que elas provocam. A constatação, no entanto, concorda com as conclusões anteriores: as mulheres têm menos poder sobre a cidade do que os homens, esse fato nunca é levado em conta e as inovações da cidade não compensam essa desigualdade, longe disso.

Convidamos as cidades a refletir

Preconizamos à instalação de dispositivos de observação e avaliação das políticas públicas sob o ângulo do gênero. Além de realizar contagens sistemáticas de atividades por cada sexo, o “gender budgeting” permite às municipalidades tomarem consciência da injustiça da redistribuição da oferta pública de lazer. Junto com várias coletividades de Bordeaux, conseguimos usar esses números para desenhar dispositivos de apoio ao empoderamento de associações e atividades ditas femininas (independentemente de que atividades são propostas, por princípio). Convidamos as municipalidades a imaginar locais em que adolescentes possam se reunir e que possam ser usados pelas garotas quando forem incomodadas por coletivos de meninos cheios de virilidade, sexismo e homofobia.

Criar um observatório de desigualdades de gênero

Aplicada em campo, a metodologia empregada por nosso laboratório rapidamente ganha operacionalidade. Uma lista de questões ligadas ao gênero (principalmente as discriminações ligadas à identidade e à orientação sexual, fontes de uma importância violência urbana homofóbica) poderia ser compartilhada pelo bias de observatórios de desigualdades de gênero. Assim, os resultados das políticas públicas de habitação, de transporte, de equipamento e reformas seriam constantemente observados. Os ambientes urbanos bem-sucedidos no quesito relações sociais de sexo seriam recompensados com um label, um estímulo para a criação de qualidade, que destacaria as cidades que oferecem um bom coeficiente de convivência nos espaços públicos, dia e noite, e também um alto grau de apropriação dos negócios da cidade por mulheres.

Sobre o mesmo assunto: “As meninas que o lazer público esqueceu” (em Francês)

 

Referências

1. Estudos disponíveis (em Francês) no site da a’urba (agência de urbanismo de Bordeaux): http://www.aurba.org

2. « Le genre, variable centrale de la violence sociale ? », S. Ayral et Y. Raibaud. In :Violences et société. Regards sociologiques, D. Ferrand-Bechmann et A. Ndiaye (dir.), Desclée de Brouwer, 2010, 320 p.

Robert Reich: Os executivos da GM deveriam ser processados

Texto original: “Robert Reich: GM Executives Should Be Prosecuted”

http://www.alternet.org/corporate-accountability-and-workplace/robert-reich-gm-executives-should-be-prosecuted

Data de publicação do original: 5 de junho de 2014

Autor: Robert Reich

lt: Secretário do Trabalho durante a presidência de Bill Clinton (1993-1997), Robert Reich é uma das vozes norte-americanas contra a concentração de renda nos EUA. Para saber mais sobre sua luta, assista o documentário Inequality for All (“Desigualdade para Todos” — tradução não oficial do título), de 2013.

Página 1

Hoje a General Motors anunciou que demitiu 15 empregados e advertiu outros cinco após uma investigação interna sobre dispositivos de ignição defeituosos, os quais levaram a pelo menos 13 fatalidades.

Imagem: Youtube

Mas quem é legalmente responsável quando uma grande corporação desrespeita a lei? O governo acha que é a própria corporação.

Errado.

“O que a GM fez foi desrespeitar a lei… ela falhou em respeito às obrigações de segurança do público”, repreendeu o Secretário dos Transportes Anthony Foxx há algumas semanas, isso depois de ter imposto a maior pena possível ao gigante automotivo.

O Procurador Geral Eric Holder foi ainda mais agressivo ao anunciar a sentença de culpa do mega banco Credit Suisse, acusado de ajudar americanos ricos a escaparem de impostos. “Este caso mostra que nenhuma instituição financeira, seja qual for seu tamanho ou alcance global, está acima da lei”.

Duras palavras. Mas elas se apoiam sobre uma premissa estranha. A GM não desrespeitou a lei, o Credit Suisse nunca agiu acima dela. Corporações não fazem nada, são as pessoas que fazem.

Por uma década a GM recebeu reclamações sobre o dispositivo de ignição, mas decidiu não fazer nada. Culpa de quem? Olhe para o topo. David Friedman, chefe da Administração Nacional da Segurança de Trânsito em Auto-Estradas (National Highway Traffic Safety Administration), diz que havia desde engenheiros “até executivos” a par do problema.

Os empregados do Credit Suisse seguiam uma cartilha bem desenhada, eles chegavam a enviar banqueiros particulares aos EUA usando visa turístico para evitar serem detectados. De acordo com o chefe do Departamento de Serviços Financeiros do Estado de Nova Iorque (New York State’s Department of Financial Services), “decididamente”, o crime do Credit Suisse “não foi o resultado da conduta de apenas algumas maçãs podres”.

Ainda assim, em nenhum desses casos algum executivo foi condenado por violar a lei. Nenhum pistolão foi pra cadeia. Não houve nem demissões de executivos.

Ao invés disso, o governo impõe multas à empresa. A lógica é que, como foi a companhia que beneficiou dos atos ilegais, é a companhia inteira que tem que pagar.

Mas essa lógica é furada. Essas multas sempre são tratadas pelas empresas como custos de negócios. A GM foi multada em 35 milhões de dólares. Isso é amendoim pra uma corporação de cem bilhões de dólares.

O Credit Suisse pagou uma multa ainda maior: 2,8 bilhões de dólares. Mas mesmo essa quantia é desprezível nos mercados financeiros. Na verdade, as ações do banco valorizaram no dia do anúncio da multa — e foi a única grande instituição financeira a mostrar ganhos naquele dia. Seu CEO parecia até animado: “Nossas discussões com clientes nos aliviaram muito e acabamos não enfrentando muitos problemas”. (Sequer pediram pro Credit Suisse entregar a lista de clientes sonegadores).

Uma multa só tem efeito se a quantia a ser paga multiplicada pelo risco de ser pego for maior do que os lucros trazidos pelo comportamento ilegal. Na realidade, é muito raro o resultado da conta chegar perto dos lucros.

E mesmo quando esses valores se aproximam, quem se dá mal não são os acionistas, que lucraram por vários anos, quando os crimes foram cometidos. A maioria dos acionistas na época da multa nem estava lá na época do crime.

Chamar uma empresa de criminosa é ainda mais absurdo. O Credit Suisse se declarou culpado de conduta criminosa. Pode ser que a GM também enfrente um processo criminal. Mas o que significa isso? Não se pode prender uma empresa.

Com certeza, as corporações podem ser executadas. Em 2002, a gigantesca firma de contabilidade Arthur Andersen foi considerada culpada de obstrução à justiça quando alguns de seus membros destruíram registros de auditoria da empresa Enron. Como resultado, os clientes da Andersen foram embora e a empresa entrou em colapso. (Depois disso, a Andersen apelou e foi inocentada).

Aqui, de novo, incomodaram-se as pessoas erradas. A vasta maioria dos 28 000 empregados da Andersen não tinha absolutamente nada a ver com os crimes quando perdeu o emprego, enquanto que a maioria de seus superiores encontrou facilmente algum trabalho de contabilidade ou consultoria em outra empresa.

Página 2

A verdade é que empresas não são seres humanos — apesar do que diz a Corte Suprema Norte-Americana. Corporações não desrespeitam leis, são pessoas específicas que fazem isso. Nos casos da GM e do Credit Suisse, as provas apontam para executivos próximos do topo.

Os conservadores adoram falar de responsabilidade pessoal. Mas quando se trata de crime do colarinho branco, nunca ouvi nenhum pedido para que indivíduos fossem processados.

Ainda assim, a única maneira de impedir que corporações gigantes prejudiquem o público é ir atrás das pessoas que causam o prejuízo.

Os piores lugares do planeta para o trabalhador

Artigo original: “The Worst Places On The Planet To Be A Worker

http://www.huffingtonpost.com/2014/05/28/worst-countries-workers_n_5389679.html

Autor: Kevin Short

Publicado em 28/05/2014

 

Quais são os piores lugares do mundo para os trabalhadores?

Um novo relatório (em Inglês) da International Trade Union Confederation (lt: “Confederação Internacional de Sindicatos do Comércio”), uma organização de sindicatos através do mundo, expõe a situação dos direitos dos trabalhadores em 139 países. Para definir seu Índice Global de Direitos, a ITUC avaliou 97 medidores de direitos do trabalhador, tais como a possibilidade de se sindicalizar, leis e acesso à justiça trabalhista, e também a violência no trabalho. O grupo classificou cada país numa escala de 1 (melhor proteção) a 5 (menos proteção).

O estudo descobriu que, em pelo menos 35 países, trabalhadores foram levados à delegacia ou mesmo presos “como uma tática de resposta às demandas de mais direitos democráticos, salários decentes, condições de trabalho mais seguras e empregos estáveis”. Em nove países no mínimo, os trabalhadores são regularmente intimidados com assassinatos e desaparecimentos.

A Dinamarca foi o único país do mundo a obter a pontuação máxima, o que quer dizer que essa nação é perfeita nos 97 indicadores de direitos do trabalho.

Os EUA obtiveram a embaraçosa pontuação de 4, indicando “violações sistemáticas” e “sérios esforços em esmagar a voz coletiva dos trabalhadores”.

“Países como a Dinamarca e o Uruguai lideraram a classificação por causa de suas fortes leis trabalhistas, mas talvez surpreendentemente, a Grécia, os EUA e Hong Kong ficaram pra trás”, escreveu o secretário geral da ITUC, Sharan Burrow, num comentário sobre o relatório (também em Inglês). “O nível de desenvolvimento de um país não indica se ele respeita ou não os direitos básicos às negociações coletivas, greves por condições decentes, ou simplesmente a sindicalização”.

Abaixo está a imagem das notas de todo o mundo. O vermelho mais forte representa menos proteção para os trabalhadores. Uma nota de 5+ significa que os conflitos ativos, como os da Síria e do Sudão, bloqueiam qualquer proteção legal aos trabalhadores.

Será que o seu cérebro está pronto para a junk food, o pornô e a Internet?

O artigo abaixo contém muitos e muitos links para outros artigos. Estão todos em Inglês. Não li todos, e nem conto traduzir todos! Mas se você achou algo interessante, ou se tem uma tradução a compartilhar, não deixe de escrever um comentário.

Artigo original: Is Your Brain Truly Ready for Junk Food, Porn, or the Internet?

( Do blog Sparring Mind : http://www.sparringmind.com/supernormal-stimuli/ )

Autor: Gregory Ciotti

“O sábio dirige suas paixões, o bobo as obedece.” — Publius Syrus

Por causa do ritmo frenético da tecnologia, temos que julgar se nossos cérebros e corpos têm conseguido se adaptar a todos esses novos estímulos.

Algumas pesquisas sugerem que certas coisas das quais nos aproveitamos hoje em dia deveriam ser classificadas como estímulos supernormais, termo que os biólogos da evolução usam para descrever qualquer estímulo que gera uma resposta mais forte do que o estímulo para a qual evoluíram, mesmo que ele seja artificial — em outras palavras, será que as fontes de “super” estimulação tais como a junk food e o pornô não têm mais chances de nos viciar?

Este é com certeza um assunto muito cabeludo, mas acredito que a questão merece ser investigada.

Afinal, estamos cada vez mais cercados de estímulos que não estavam disponíveis poucos anos atrás, então será que minha mente e meu corpo estão realmente prontos para os nuggets de peixe com gosto de queijo e as atualizações intermináveis das redes sociais?

Antes de entrar nos detalhes das pesquisas, façamos um resumo um pouco mais claro do conceito: o que exatamente é estímulo supernormal?

A brilhante tirinha abaixo explica o básico, e você não vai levar nem dois minutos pra ler.

Fique esperto: Estímulos Supernormais

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Tirinhas: do loucamente talentoso Stuart Mcmillen, publicado com permissão (lt: pelo blog original; o texto traduzido foi adicionado pelo amigo e colaborador Saulo Somavilla). Mais abaixo você pode encontrar mais sobre Stuart e seu trabalho.

Quando a “Super” estimulação dá errado

Nikolaas Tinbergen, etologista ganhador do prêmio Nobel, é o pai do termo estímulo supernormal. Como descrito acima, Tinbergen descobriu com seus experimentos que ele podia criar estímulos “artificiais” que eram mais fortes do que o instinto original, incluindo os seguintes exemplos:

  • Ele fez ovos de gesso pra ver qual deles o pássaro preferia chocar, e descobriu que eles escolhiam os maiores, os que tinham marcas mais definidas, ou cores mais saturadas — o ovo super brilhante com bolinhas pretas era escolhido no lugar do ovo do próprio pássaro, que era azul claro com pintinhas.
  • Ele descobriu que os peixes esgana-gatas, que são muito territoriais, atacariam um peixe de madeira com mais vontade do que um macho de verdade se a barriga do peixe de madeira fosse mais vermelha.
  • Ele fez borboletas de cartolina com marcações mais definidas com as quais as borboletas macho tentavam acasalar, com preferência sobre as fêmeas de verdade.

Num curto intervalo de tempo, Tinbergen conseguiu influenciar o comportamento desses animais com novos “super” estímulos que os atraíam, e eles até preferiam o falso ao verdadeiro.

O instinto comandava, e então passava a ser nocivo à sobrevivência dos animais, pois estes simplesmente não conseguiam dizer não aos falsos estímulos.

Muito do trabalho de Tinbergen foi bem capturado pelo psicólogo de Harvard Deirdre Barret no livro Estimulação Supernormal: Como as necessidades primárias ultrapassaram seu propósito evolutivo (lt: atenção, o título foi traduzido por mim, se uma tradução do livro existe em Português, pode não ter exatamente este título.). É necessário julgarmos se a correlação entre essas descobertas e o comportamento humano é próxima ou não.

O Dr Barret parece pensar que a ligação é mais íntima do que acreditamos, argumentando que a estimulação supernormal governa o comportamento de humanos com tanto poder quanto sobre os animais.

A hipótese é que assim como nas rápidas introduções de estimulação anormal em animais feitas por Tinbergen, o rápido avanço da tecnologia pode ter criado uma situação similar para os humanos — podemos realmente estar “preparados” para algumas de nossas altamente estimulantes experiências modernas, com tão pouco tempo para nos adaptar?

É muito difícil dizer — você pode encontrar argumentos excelentes dos dois lados.

Aqui estão alguns exemplos bem comuns que são questionados:

(Nota: por favor leia o artigo até o final. Não estou dizendo que você não deve nunca entrar em contato com o que vem abaixo, nem que os exemplos são conclusivos, nem que eles sejam “normais”, nada disso! Eles só são citados como curiosidade.)

Junk food

1.) A natureza altamente viciante da junk food é uma das maiores preocupações da nossa geração — a comida é desenhada especificamente para ter mais apelo do que seus correspondentes naturais. É de se admirar que quando a fast food é introduzida em outros países, as pessoas começam a consumir com mais freqüência?

2.) Alguém poderia argumentar que por muito tempo, os humanos tinham fontes de alimentos relativamente estáveis. Agora uma nova “invenção” gastronômica aparece a cada semana. Como isso pode estar nos afetando? Alguns estudos sugerem que comidas como grãos processados apareceram rápido demais e estão bagunçando com nossa mente e nosso corpo.

3.) A comida é uma das coisas mais duras de se resistir pois é uma necessidade absoluta — o problema com a junk food é que ela é uma versão “super-estimulante” de uma recompensa natural que supomos que devemos perseguir. O vício em comida é um problema real, e é um hábito muito difícil de interromper porque os gatilhos estão sempre presentes.

TV e video-games

1.) Se você der uma olhadinha no meu escritório em casa, vai encontrar um Super Nintendo que ainda funciona com o cartucho Chrono Trigger pronto pra ser jogado. Eu não acho que video-games causam comportamentos excessivamente violentos (e as pesquisas concordam), mas tenho que admitir que os video-games podem ser viciantes para algumas pessoas, em particular para certos tipos de personalidade.

2.) O vício em televisão pode dar sinais de vício comportamental em algumas pessoas — os telespectadores muitas vezes ligam a TV para mudar de humor, mas o alívio que obtêm é apenas temporário, e freqüentemente os faz querer mais.

3.) Provavelmente você não vai se surpreender ao ouvir que jogos de computador têm sido ligados a uma forma de fuga, mas o que pode ser que você não saiba é que alguns estudos encontraram sintomas como os da síndrome de abstinência num pequeno grupo de pessoas; elas se tornaram nervosas, agitadas e até tinham sintomas físicos de abstinência.

Pornografia

1.) Provavelmente o mais controverso de todos os estímulos modernos, a pornografia já foi descrita como naturalmente nociva porque ela poderia causar desvios na atividade normal que é o sexo. O pornô já foi ligado a mudanças de gostos sexuais, e alguns dizem que o pornô pode se tornar uma fonte “interminável” de dopamina (mas há poucos estudos conclusivos sobre a mente e a pornografia).

2.) Há uma passagem num romance de Kurt Vonnegut onde um homem mostra a outro a foto de uma mulher de biquíni e pergunta: “Gosta disso, Harry? Esta garota aqui.” E o homem responde: “Isso não é uma garota. É um pedaço de papel”. Quem avisa sobre a natureza viciante do pornô sempre enfatiza que ele não é um vício sexual, é um vício tecnológico. Será que o pornô pode mudar a sua maneira de ver o sexo na realidade?

3.) Já sugeriram que a pornografia bagunça com o “circuito de recompensa” na sexualidade humana —  por que você se dedicaria a encontrar e impressionar um(a) parceiro(a) em potencial, se você pode simplesmente ir pra casa assistir pornô? Isso tem sido apresentado como o início do vício em pornografia, já que a novidade está sempre a um clique de distância, e a novidade está intimamente ligada à natureza altamente viciante da dopamina.

Como explicado num artigo de 2009 da psicóloga Susan Weinschenk, a dopamina não é um neurotransmissor que dá prazer às pessoas, ao invés disso, ele causa um comportamento de busca. “É a dopamina que nos faz querer, desejar, sair pra procurar”, ela escreveu.

É o sistema opióide que dá a sensação de prazer. Ainda assim, “o sistema dopamina é mais forte do que o sistema opióide”, ela explica. “Tendemos a buscar mais do que a estar satisfeitos”.

A internet

1.) Não é de surpreender que os psicólogos de hoje dão muita importância à teia, reconhecendo que ela pode ser muito viciante. Ela permite que a gente se envolva em praticamente qualquer coisa com controle ilimitado, e alguns países tais como o Japão e a Coréia do Sul já tiveram sérios problemas com indivíduos socialmente ineptos que desenvolveram uma obsessão muito doentia pela internet — uma história que eu li detalhava um homem que passou seis meses sem sair de seu apartamento.

2.) Já se mostrou que a mídia social deixa muitas pessoas deprimidas —  elas vêem o que as outras pessoas postam e podem se sentir pior em relação à própria vida. Estes olhares seletivos e muitas vezes enganosos sobre a vida dos outros nunca foram possíveis antes da rede. Por isso, as pessoas não conseguem parar de espiar, pensando que podem estar perdendo algo.

3.) Para algumas pessoas, abusar da internet pode prejudicar a habilidade de concentração. Os rápidos pulsos de diversão que a internet permite, e o fato de que a informação está sempre a um clique, pode (através do abuso) causar uma diminuição do pensamento crítico e conceitual. Já disseram que a internet pode se tornar uma “distração crônica” que acaba lentamente com a sua paciência e com a sua habilidade de pensar e trabalhar em uma coisa só por longos períodos.

O que fazer?

Bom, isso pode ser muito pra absorver de uma vez só.

Antes de entrar em pânico, pirar, jogar fora todos os seus biscoitos Passatempo e cancelar sua assinatura de internet, por favor ouça — tudo em moderação, assim como sua reação à informação deste artigo.

muita pesquisa que contradiz o que você acabou de ver. Leia A Explosão de 10 000 anos se quer ver mais dessa perspectiva. Além do mais, lembre-se que o importante é o uso que você faz dos recursos.

A Internet, por exemplo: é claro que de alguma forma a internet pode se tornar uma distração, mas pense em tudo o que ela trouxe de bom. A web é o melhor recurso no mundo para informação e conhecimento, por isso a maneira dela afetá-lo(a) depende do uso que você faz dela.

Somos todos perfeitamente capazes de usar e nos relacionar com os estímulos supernormais — a única razão pela qual eu escolhi destacar os exemplos acima, que são extremos, foi mostrar como as coisas podem ir mal com o abuso ou o mal uso deles.

É isso mesmo, galera, podem largar as tochas e as foices! Eu não sou o maior inimigo da junk food, da internet e tudo o que é legal. Meu único objetivo com este artigo foi a simples exploração do assunto.

Na verdade, a tirinha lá em cima também teve uma intenção parecida. O artista Stuart McMillen descreve de forma articulada por que você não deve ter tanto medo da informação. Em várias maneiras, você deveria se sentir reconfortado(a):

Em ambos os casos, a principal mudança é a consciência. Consciência de que a única coisa que nos atrai numa sobremesa cremosa é o fato de ela ser mais doce do que qualquer fruta natural.

Consciência de que assistir TV ativa a “resposta de orientação” primitiva, que mantém nossos olhos grudados nas imagens que se mexem como se elas fossem um predador ou uma presa. Consciência de que gostamos de personagens “fofinhos” por causa da nossa necessidade biológica de proteger e nutrir nossos bebês.

Eu não removi nenhum estímulo supernormal da minha vida, e não tenho a menor intenção de fazer isso. O segredo é identificar os estímulos assim que eles aparecem, e fazer um esforço mental para regular ou ignorar a tentação.

Concordo com Deirdre Barrett quando ele diz que às vezes a gente se sente mais recompensada dizendo não ao supernormal do que seguindo o impulso. Só a consciência pode ajudar a impedir que o supernormal se torne “normal” em nossas vidas.

(Hei… você devia se inscrever pra receber a incrível newsletter do Stuart pra saber mais sobre seu novo lançamento em 2014. Também lembre-se de dar uma olhada no site dele pra ver outras tirinhas dele. Ele também vende tirinhas impressas, eu mesmo comprei uma e elas são ótimas. Valem muito mais do que o preço). (Lt: essa propaganda está no artigo original, lembre-se que isto é apenas uma tradução!)

Você decide o que é normal

A “solução”, acho eu, é simplesmente evitar de se acostumar.

O verdadeiro inimigo aqui é a complacência — ou se deixar tornar uma vítima de seus próprios hábitos, ao invés de dirigir a própria vida.

C.S. Lewis tinha alguns pensamentos interessantes sobre isso:

Só aqueles que tentam resistir à tentação sabem como ela é forte.

Afinal, é lutando contra o exército alemão, e não se rendendo a ele, que você descobre sua força. Você descobre a força do vento quando tenta andar contra ele, e não quando se abaixa.

Um homem que cai na tentação após cinco minutos simplesmente não sabe como seria fazer isso uma hora mais tarde.

Minha opinião pessoal é que pequenos retiros são uma ótima forma de testar nossas pequenas dependências em qualquer coisa. Poder partir pra longe pra fazer algo que escolhemos fazer é importante porque põe você de volta no controle.

Deixar de fazer algo por um curto período pode ajudá-lo(a) a entender que lugar aquilo tem na sua vida, especialmente quando se trata de uma atividade opcional. Se você tentar ficar longe de algo por alguns poucos dias, e perceber que começou a ficar ansioso(a) e agitado(a), pode ser que o seu corpo esteja querendo dizer algo importante. Se você consegue parar de uma vez sem problemas, também é importante saber!

Por isso, não, não entre em pânico, nem pire. Apenas reconheça que o seu cérebro pode ser fisgado por muitas das fontes de “super” estimulação que temos hoje em dia, e sua responsabilidade é se manter no controle.

“Aqueles que não se movem não percebem as próprias correntes.” — Rosa de Luxemburgo.

Agora me desculpe, mas eu preciso voltar a perder tempo na Internet 😀

As elites francesas têm vergonha da França

Artigo original: Les élites françaises ont honte de la France

http://www.marianne.net/Les-elites-francaises-ont-honte-de-la-France_a235106.html

Entrevistador: Bertrand Rothé

Publicado em 19/01/2014

A antiga diretora da E.N.A. (Escola Nacional de Administração francesa), deputada pelo departamento francês Aisne e pertencente ao grupo socialista, apresenta aqui seu olhar crítico sobre a relação que as classes dominantes francesas mantêm com a nação. De sua presença na política à sua vida com os alunos das grandes écoles, Marie-Françoise Bechtel conta várias histórias edificadoras.

Marie-Françoise Bechtel – BALTEL/SIPA

Marianne: A senhora acaba de afirmar numa entrevista publicada na revista l’Expansion que “uma coisa específica da França é que as elites detestam a nação”. A senhora poderia explicar melhor esse pensamento e dar alguns exemplos?

Marie-Françoise Bechtel: É uma idéia que me persegue faz muito tempo. Lembro de tê-la apoiado pela primeira vez numa entrevista a Joseph Macé-Scaron no Figaro no final de 2000. Eu tinha dito a ele que eu estava muito admirada de ver o quanto as elites inglesas eram orgulhosas de sua nação. Hoje, pra mim, essa constatação é mais do que absoluta e evidente. As elites francesas têm vergonha da França, o que não impede que elas possam ter um comportamento extremamente arrogante, mesmo que isso pareça paradoxal. Cito freqüentemente o exemplo de Jean-Marie Messier. Esse puro produto das elites francesas tinha qualificado os Estados Unidos de “verdadeira pátria de homens de negócios”, e isso logo antes de mudar pra lá. Aqui, a afirmação é perfeita. Todas as elites não são tão claras assim, mas muitas pensam igual.

Isso é só um exemplo!

M.-F.B.: Posso citar dezenas. Vejamos esses dos grandes patrões cujos grupos investem no estrangeiro e que fogem aos impostos na França. Você não pode dizer que são comportamentos patriotas… A empresa Total (letranslator: gigante francesa fornecedora de combustível e energia) quase não paga impostos na França. Claro, em outros países há vários grupos que se comportam da mesma maneira, mas eles sabem estar presentes quando seus países precisam deles. Veja assim a maneira com a qual tratamos as comemorações da guerra de 1914-1918: as elites, inclusive o Partido Socialista, culpam as nações. Esquecemos que os povos não queriam as guerras, e que é a negação da nação que nos arrasta nos dias de hoje em direção a uma Europa que não pára de fazer crescer a extrema direita. Outro exemplo que me foi contado de primeira mão e que ilustra essa mistura de negação e arrogância. Nas negociações européias de 1997 a 1999, em vista da conclusão do Tratado de Nice (letranslator: feito no ano 2001, esse foi o último tratado antes do estabelecimento definitivo da U.E. pelo Tratado de Lisboa em 2007), Pierre Moscovici, que era ministro francês dedicado aos negócios europeus, tinha tratado os países menores com um desprezo inacreditável, cortando a palavra de uns, pedindo que encurtassem seus discursos, exigindo que o representante da Bélgica se calasse. É o mesmo Pierre Moscovici, toda a sua ação o demonstra, que é convencido de que a nação francesa desapareceu, e que nos tornamos uma grande nebulosa liberal e americanizada.

Face a isso, neste período de crise, na França, o povo se volta para a nação, e como proíbe-se a ele de ser orgulhoso de seu país, e que durante um programa de TV explica-se que a França é uma nação em apodrecimento e declínio, acaba tomando o mau caminho, a direção errada. Todos esses homenzinhos jogam o jogo do Front National (letranslator: partido francês de extrema direita).

Mas também é interessante se perguntar quando foi que esse desprezo pela nação começou a se desenvolver nas nossas elites. Acho que uma resposta se encontra nos escritos de Jean-Pierre Chevènement. Ele, acho que pela primeira vez, abordou essa questão no livro A República Contra os Pensadores (“La République contre les bien-pensants”), nos anos 90, e em seguida a desenvolveu em A França Acabou? (“La France est-elle finie?“). Em resumo, ele mostra que esse ódio da França e do povo começou logo após a guerra, e eu concordo. Penso que as elites traíram o povo, que elas se comprometeram com o regime de Vichy (letranslator: presidente francês que apoiou Hitler) e que elas carregam nas costas a derrota de 1939, “a derrota esquisita” (letranslator: isso foi quando a França aceitou a invasão pelos alemães, os franceses entraram pra História como medrosos, mas hoje fala-se de uma concordância velada com o nazismo).  Foi nesse momento que tudo aconteceu. Eu juntei algumas entrevistas com o último membro ainda vivo do CNR (letranslator: Conselho Nacional da Resistência Francesa), Robert Chambeiron, elas serão publicadas em breve, aliás. Ele explica com muita precisão a situação dos partidos políticos em 1940. A situação era catastrófica! Eles não tinham nenhuma legitimidade. Robert Chambeiron conta sobre esse descrédito e sobre a maneira como pouco a pouco os principais partidos foram se reconstituindo e admitindo a necessidade de uma união nacional. Ele conta sobre a primeira conversa entre Daniel Mayer, representante da SFIO, e um enviado do Partido Comunista num mictório público. A abordagem do assunto é violenta. O primeiro envia ao outro os acordos Molotov-Ribbentrop, a aliança entre Stalin e Hitler. O comunista se ofusca e responde: “Como é que o senhor ousa dar lição de moral depois de Munich?” Todo mundo se cagava de medo de Hitler. A sorte dos partidos, é preciso dizer, foram os Estados Unidos. Os americanos desconfiavam de Charles De Gaulle, eles queriam se assegurar do apoio dos partidos e dos sindicatos. Foi Washington que devolveu o poder a eles.

Depois da guerra, a direita teve uma chance com De Gaulle. Ele comprou a direita de volta. É por isso que toda a direita virou gaulista por vários anos. Mas isso acabou…

Se o De Gaulle comprou a direita de volta, quem poderia comprar a esquerda de volta?

M.-F.B.: Boa pergunta, primeiro saber se a esquerda pode ser comprada de volta. Não vejo outra pessoa que pode fazer isso a não ser Jean-Pierre Chevènement. Pierre Mendès France participou do seu jeito e não acho que François Miterrand merece todo o mal que muita gente diz dele. Mas eu não diria que ele comprou a esquerda de volta porque ele fez da Europa o que ela é hoje.

Nenhuma parte de nossas elites agrada a senhora?

M.-F.B.: Eu não tenho a menor admiração pela grande maioria das elites econômicas, mas acho que há exceções. Assim, por exemplo, Jean-Louis Beffa, antigo patrão em Saint-Gobain, me parece ainda ter alguma consciência nacional. Por outro lado, não dá pra ir procurar isso nos bancos. A poupança francesa é enorme, 17 % dos lucros… E o que ela faz? Nada, ou melhor, nada de útil a nosso país. Quanto às elites políticas, eu falo com elas todos os dias, elas sofrem de uma síndrome dupla: de um lado, isso que meu amigo Sami Naïr chama de “bondadismo”, quer dizer, o pensamento virtuoso. Por outro lado, elas são obcecadas pela idéia de que a esquerda não tem legitimidade. Esta, então, tem que ser conveniente e mostrar que é (letranslator: o atual governo francês é o Partido Socialista). Cada vez que uns ministros são atacados pela direita, eles se defendem dizendo que eles respeitam os códigos do mundo liberal. Hoje, apenas Arnaud Montebourg (letranslator: atual ministro do trabalho) como exceção, ainda que haja ministros que trabalhem de forma útil, Michel Sapin por exemplo.

Na mídia também, é meio desastroso. A palavra “nação” arrepia. O jornal Libération permanece o jornal da corrente “liberal-libertadora”, mesmo se ainda solta uma pepita aqui e ali. Le Monde não pára de me decepcionar, começou faz tempo e anda cada vez pior, já não sobra muita coisa desse grande jornal. Le Figaro? Ele se tornou o órgão oficial pra acusar a esquerda no poder e quase nada mais.

E os altos funcionários? Como antiga diretora da ENA e como conselheira de Estado, a senhora conheceu vários deles…

M.-F.B.: Em geral, eles vivem num ideal europeu angélico e virtuoso. Eles repetem que “a Europa é nosso futuro”. Sobre esse assunto, o espírito crítico deles é pouco desenvolvido. Todos eles acham que a França é coisa do passado.

Mas é preciso desconfiar das generalizações. Neste universo, há antes de tudo o Ministério da Economia. O mais importante é o casal Tesouro-Orçamento. É lá que tudo acontece, tudo se decide. É impressionante o poder que eles têm, e eu estou prestando atenção às minhas palavras. Dar tanto poder para o Ministério da Economia é um grave erro. Primeiro, esses senhores não confiam nos políticos. Eles travam tudo. Eu fui membro da comissão de inquérito sobre o caso Cahuzac, e posso dizer que nunca conseguimos nada dos diretores ou responsáveis dessas duas administrações. Nada. Nenhuma resposta! Branco total! Foi impressionante. Mas ao mesmo tempo há diferenças entre as duas. O pessoal do Tesouro passa o dia inteiro no avião, um dia em Cingapura, o outro em Nova Iorque, pra investir dinheiro público. Eles pensam em Inglês. Passado um certo tempo, eles não conhecem mais a França, e ela passa a ser simplesmente o patrão deles. A outra administração de Bercy que conta é o Orçamento, e essa direção estaria mais pra gangrenada pela ideologia alemã, se posso dizer assim. Ela se tornou obcecada pelo equilíbrio de orçamento.

Tirando essas duas administrações, algumas ainda se comportam bem. Penso primeiro à minha origem, o Conselho de Estado. A mais alta jurisdição administrativa francesa resiste às loucuras européias.

Ainda que eu tenha saído de lá, e eu acho uma pena, ela continua sendo uma instância insubstituível. Em seguida, penso nas Préfectures (letranslator: equivalente das secretarias de segurança pública no Brasil). Os préfets (letranslator: seriam os secretários de segurança pública) formam uma instituição que resiste, ao que me parece. Ela resiste primeiro porque é um corpo que representa o Estado e não os campos feudais regionais. Esses altos funcionários estão em contato com a diversidade dos problemas, vivem no interior, vêem os franceses todos os dias. E há também as Forças Armadas. Quando eu era diretora da ENA, encontrava regularmente os dirigentes da Politécnica e de Saint-Cyr. O Exército fez um grande esforço para se abrir à nação, após a infeliz suspensão do serviço militar que o Jacques Chirac impôs.

Mas a senhora tem uma certa responsabilidade nessa história, pois foi a senhora que selecionou as elites e a senhora as formou quando estava na ENA!

M.-F.B.: Há duas coisas que eu preciso explicar primeiro. Como diretor da ENA, você não forma ninguém, são as grandes administrações que escolhem os professores na escola. Por outro lado, era eu que propunha ao ministro os membros do júri, e aliás eu tinha escolhido na época um jornalista da revista Marianne. Dessa forma, nosso finado Philippe Cohen tinha participado à seleção dos futuros altos funcionários. O segundo elemento que o público muitas vezes ignora é que a ENA não funciona como uma escola de aplicação de Ciências Políticas. Não se engane, a grande escola é a de Ciências Políticas. É lá que os estudantes são formados, ou deformados. A Ciências Políticas se tornou “a escola do mercado”, segundo as palavras do próprio Richard Descoings, que a reformatou. Esse homem, muito inteligente e também muito perigoso, estava convencido de que o mercado era a lei e que a lei era o mercado. Ele nem percebeu a chegada da crise, aliás. Mas ele formatou essa escola de uma maneira sem precedentes. A vitória do mercado se mede também porque há cada vez mais alunos de escolas de comércio, principalmente de HEC (letranslator: “altos estudos comerciais” numa tradução bem chula), que entram na ENA, e todo mundo lá jura de pé junto que desde que mamavam no peito sonhavam em servir o país. A conseqüência é dramática, eles recitam discursos decorados. Lembro-me de vários membros do júri me dizerem que esses alunos estavam tão formatados que era difícil, ou mesmo impossível de escolhê-los, pior ainda para classificá-los. E quando eles eram escolhidos, percebi que eu não podia fazer nada pra ajudar pessoas tão — como dizer? — fechadas sobre suas certezas, o que é agravado pela falta de cultura.

De onde pode vir alguma esperança?

M.-F.B.: Eu sou uma pessoa otimista. Veja os alemães. Há uma renovação da língua e, além disso, o orgulho alemão. Dez ou doze anos atrás, fui convidada a um colóquio sobre um tema particularmente interessante hoje em dia: “a Alemanha tem o direito de ter sua própria elite?” A Alemanha, nessa época, estava num buraco, ela não ia bem. Tinha um conselheiro do Gerhard Schröder que era meio que sua cabeça pensante, um homem muito conhecido na época, e eu mostrei pra ele a minha surpresa em ver alemães que  falavam em Inglês sobre o futuro das elites alemãs. Aquilo me parecia muito paradoxal. Bom, nesse dia, nossos anfitriões me falavam de seu sonho: “a senhora se dá conta, pois vocês (franceses) têm uma reunião pública, política, vocês têm a Revolução Francesa atrás de vocês, e isso lhes leva, e nós não temos algo equivalente a isso. Pior ainda, pra nós é difícil fazer referências ao passado”.

Penso também que precisamos de bases sólidas. Somos um país muito grande. Ainda somos a sexta potência mundial. Ainda somos uma grande potência econômica, uma grande potência exportadora, apesar de nosso déficit comercial. Acho que tudo isso aí é muito mal contado. Deveríamos ensinar a nossas elites o respeito dessa história, dessa nação, e ao invés disso ensinamos a eles a arrogância e o desprezo.

Terceiro elemento, e não menos importante: não sei se é a nação ou o Estado quem resiste, mas alguma coisa em nós resiste. Nossas bases, até certo ponto, permanecem sólidas.

Para concluir, com tais afirmações, a senhora não teme se juntar aos intelectuais e políticos que foram qualificados de “neo-bobos” pelo periódico Le Point? Cuidado, a senhora pode acabar se juntando a Marine Le Pen… (letranslator: Marine Le Pen é a presidente do partido de extrema direita Front National). 

M.-F.B.: Esqueçamos esse inventário ridículo do Point. Acho que se houvéssemos escutado melhor Jean-Pierre Chevènement, ou melhor, si o tivéssemos elegido em 2002, veríamos hoje qual é a diferença entre uma concepção aberta, generosa e patriota da nação; e essa fuga medrosa, pra não dizer infantil, com valores regressivos. O problema hoje é fazer os franceses entenderem que uma nação bem entendida é fonte de modernidade, não de fuga: mas como fazê-los entender, quando, tanto à esquerda como à direita, a Europa tal como ela evolui se tornou “a grande ilusão”?

Biografia resumida

Marie-Françoise Bechtel foi diretora da ENA de 2000 a 2002. Ela é hoje deputada da quarta circunscrição do Aisne, membro do Movimento Republicado e Cidadão, aparentado ao grupo socialista. Ela é vice-presidente da Comissão de Leis da Assembléia Nacional. Mas ela também é um exemplo da eficácia do sistema escolar republicano. Filha de professores, ela é autoridade em Filosofia e conselheira de Estado.