A biologia mal interpretada matou a economia

Título original: “How bad biology killed the economy”

http://www.emory.edu/LIVING_LINKS/empathy/Reviewfiles/RSAJournal.html

Autor: Frans de Waal

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Frans de Waal (foto Wikipédia)

Original publicado em dezembro de 2009.

Uma cultura artificial de ganância e medo pôs a economia de joelhos. Precisamos começar a jogar a favor de nossas forças pró-sociais, diz Frans de Waal

O CEO da Enron – agora na prisão – costumava aplicar a lógica do “gene egoísta” a seu capital humano, e acabou criando uma profecia autorrealizável. Assumindo que a espécie humana é motivada unicamente pela ganância e pelo medo, Jeffrey Skilling produzia funcionários que tinham essas motivações. A Enron implodiu por causa do espírito maléfico de suas políticas, e ofereceu uma prévia do que estava por atingir toda a economia mundial.

Admirador assumido da visão de evolução de Richard Dawkin, segundo a qual tudo é centrado nos genes, Skilling imitava a seleção natural dando notas de um (o melhor) a cinco (o pior) a seus empregados. Quem tinha nota cinco era mandado embora, mas antes era humilhado(a) num site com sua foto de perfil. Nessa política chamada de ‘avalie e chute’ [no original: Rank & Yank],  cada um estava perfeitamente motivado a cortar a garganta do outro, e isso resultou em uma atmosfera corporativa marcada por uma desonestidade chocante do lado de dentro da empresa, e por uma exploração implacável fora dela.

No entanto, o problema mais profundo era a visão que Skilling tinha da natureza humana. O livro da natureza é como a Bíblia: cada um lê nela o que gosta, da tolerância à intolerância, do altruísmo à ganância. Mas é bom lembrar que o fato de os biólogos estarem sempre falando de competição não significa que eles a preconizam. Quando eles chamam genes de egoístas, isso não quer dizer que os genes são realmente egoístas. Genes não podem ser mais ‘egoístas’ do que um rio pode estar ‘zangado’, ou os raios solares podem estar ‘amando’. Genes são como pedaços de DNA. Na melhor das hipóteses, eles se auto-promovem, pois os genes bem-sucedidos ajudam seu portador a espalhar mais cópias deles.

Assim como muitos antes dele, Skilling caiu com anzol, linha e vara na metáfora do gene egoísta, pensando que, se nossos genes são egoístas, nós também devemos ser. Ainda é possível perdoá-lo, pois mesmo que isso tenha sido uma má interpretação de Dawkins, é difícil separar o mundo dos genes do mundo da psicologia humana. Nossa própria terminologia deliberadamente confunde os dois.

Manter esses dois mundos separados é o maior desafio pra qualquer pessoa interessada em saber o que a evolução significa para a sociedade. Como a evolução avança por eliminação, ela é necessariamente cruel. Ainda assim, o que ela produz não precisa ser cruel, de modo algum. Muitos animais sobrevivem por serem sociais e por permanecerem juntos, e por isso não podem aplicar o princípio do direito do mais forte à risca: o forte precisa do fraco. Isso se aplica igualmente à nossa espécie, pelo menos quando deixamos os humanos exprimirem seu lado cooperativo. Assim como Skilling, muitos e muitos economistas e políticos ignoram e suprimem esse lado. Eles modelam a sociedade humana baseados na eterna luta que eles acreditam existir na natureza, e essa luta não passa de uma projeção. Igual ao mágico, eles jogam seus preconceitos ideológicos dentro da cartola da natureza, depois os puxam pra fora pela orelha pra mostrar o quanto a natureza concorda com eles. Nós caímos nesse truque há muito tempo. É claro que a competição faz parte do cenário, mas seres humanos não podem viver só de competição.

Estudo esse assunto enquanto biólogo e primatólogo. Você pode achar que um biólogo não devia enfiar o nariz em debates de políticas públicas, mas como a biologia já é uma parte do debate, é difícil ficar de fora. Quem gosta de competição aberta não consegue evitar de invocar a evolução. O mundo digital até caiu no infame ‘discurso da ganância’ de Gordon Gekko, o chefão corporativo interpretado por Michael Douglas no filme Wall Street, de 1987: “O negócio, senhoras e senhores, é que a ‘ganância’ – por falta de uma palavra melhor – é boa. Ganância é o certo. Ganância funciona. Ganância clarifica, corta caminhos e resume a essência do espírito evolutivo” [lt: traduzido do original, é possível que a tradução oficial do filme seja diferente].

Espírito evolutivo? Nas ciências sociais, a natureza humana é exemplificada pelo antigo provérbio Hobbesiano Homo homini lupus (‘o homem é o lobo do homem’), um aforismo questionável sobre nossa própria espécie baseado em falsas presunções sobre outras espécies. Um biólogo que estuda a interação entre a sociedade e a natureza humana não está fazendo nada de inédito. A única diferença é que, ao invés de tentar justificar um quadro ideológico específico, o biólogo tem um interesse real em saber o que é a natureza humana, de onde ela vem. Será que o espírito evolutivo só depende da ganância, como declarado por Gekko, ou tem mais?

Essa linha de pensamento não vem apenas de personagens fictícios. Leia uma coluna do New York Times de 2007 escrita por David Brooks, gozando dos programas sociais do governo: “Baseado no conteúdo de nossos genes, na natureza de nossos neurônios e nas lições de evolucionismo, é óbvio que a natureza está cheia de competição e conflitos de interesse”. Os conservadores adoram acreditar nisso, mas a ironia suprema desse caso de amor com a evolução é que a maioria deles não dá a mínima para a evolução de verdade.

Num recente debate presidencial, não menos do que três candidatos republicanos levantaram a mão respondendo à questão “quem não acredita em evolução?” Os conservadores americanos são darwinistas sociais, e não darwinistas de verdade. O darwinismo social é contra ajudar doentes e pobres, pois é a natureza que impõe que eles devem sobreviver por si próprios ou então perecer. Que pena que algumas pessoas não têm seguro-saúde, eles dizem, que bom pra quem pode pagar por um. Este ano, o senador Jon Kyl do Arizona deu um passo à frente – o que causou um certo escândalo na mídia e protestos em seu estado natal – ao votar contra a cobertura de saúde para maternidade. Ele explicou que ele mesmo nunca tinha precisado disso.

A lógica de a-competição-faz-bem-pra-você tem sido extraordinariamente popular desde que Reagan e Thatcher nos asseguraram que o mercado livre resolveria todos os nossos problemas. Desde o desmantelamento da economia, essa visão tem perdido força. Essa lógica pode ter sido ótima, mas sua conexão com a realidade era pequena. Os livre-mercadistas ignoraram inteiramente a natureza intensamente social de nossa espécie. Eles gostam de apresentar cada indivíduo como uma ilha, mas nós não fomos desenhados para sermos puramente individualistas. A empatia e a solidariedade fazem parte da nossa evolução – e não é só uma partezinha recente, trata-se de capacidades milenares que outros mamíferos também têm.

Muitos dos grandes avanços sociais – a democracia, os direitos iguais, a segurança social – apareceram graças ao que costumava ser chamado de ‘companheirismo’ [no original: ‘fellow feeling’]. Os revolucionários franceses cantavam a fraternité, Abraham Lincoln apelava para os laços de simpatia e Theodore Roosevelt falava com orgulho do companheirismo como “o fator mais importante para produzir uma vida política e social saudável”.

A história do fim da escravidão nos EUA é particularmente instrutiva. Lincoln escreveu para um amigo que a imagem dos escravos acorrentados não saía mais de sua cabeça após as viagens para o sul. Tais sentimentos motivaram Lincoln e muitos outros a lutar contra a escravidão. Veja o debate atual sobre a saúde pública nos EUA, em que a empatia aparece em destaque, ela influencia a maneira com a qual respondemos à infelicidade de pessoas que foram negadas pelo sistema, ou que perderam o acesso ao seguro. E o termo que usamos: ‘cuidado de saúde’ [no original: healthcare] – não chamamos de ‘indústria da saúde’ – mostra o quanto os seres humanos se preocupam uns com os outros.

Primatas morais?

Claro que a natureza humana não pode ser estudada se for separada da natureza em geral, e é aí que entra a biologia. Se olharmos para a nossa espécie sem nos deixar cegar pelos avanços técnicos dos últimos poucos milênios, veremos uma criatura de  carne e osso com um cérebro que é três vezes maior do que o de um chimpanzé, mas que não contém nenhuma parte nova. Nosso intelecto pode ser superior, mas não temos nenhum desejo ou necessidade que não possa ser observado em nossos parentes evolutivos. Assim como nós, eles lutam por poder, têm prazer no sexo, querem segurança e afeto, matam por território e valorizam a confiança e a cooperação. Sim, nós usamos telefone celular e voamos em aviões, mas o nosso quadro psicológico é essencialmente o de um primata social. Não digo que os outros primatas são seres morais, mas não é difícil reconhecer os pilares da moral no comportamento deles. Esses pilares convergem na direção da nossa regra de ouro, a qual transcende culturas e religiões pelo mundo todo. “Faça aos outros o que você quer que façam a você” combina empatia (atenção aos sentimentos do outro) e reciprocidade (se os outros seguirem a mesma regra, você será bem tratado(a)). A moral humana não existiria sem empatia e reciprocidade – e essas tendências são encontradas em nossos amigos primatas.

Quando um chimpanzé acaba de ser atacado por outro, por exemplo, um chimpanzé que viu a cena vai se aproximar e abraçar a vítima com carinho, até que ela ou ele pare de soluçar. A tendência a consolar é tão forte que Nadia Kohts, essa cientista russa que criou um chimpanzé desde pequeno há um século, conta que quando sua cria fugia pra cima do telhado da casa, só havia uma maneira de fazê-lo descer. Mostrar comida não funcionava; a única forma que ela encontrou foi sentar e choramingar, como se ela estivesse sentindo alguma dor. O macaquinho descia na hora e punha um braço em torno dela. A empatia do nosso priminho era maior do que seu desejo por uma banana.

O consolo foi extensivamente estudado baseado em centenas de casos por ser um comportamento comum e previsível em macacos. Da mesma forma, a reciprocidade é visível quando a gente vê que os chimpanzés dividem comida especificamente com os que  recentemente fizeram alguma gentileza ou ajudaram numa luta por poder. Freqüentemente o sexo faz parte também. Já se observou que machos selvagens invadem plantações de mamão – o que representa risco de vida para eles – visando obter esse fruto delicioso para fêmeas férteis em pagamento por sexo. Os chimpanzés sabem como conseguir as coisas.

Também existem evidências de tendências pró-sociais e de um senso de justiça. Os chimpanzés abrem voluntariamente uma porta para deixar um companheiro ter acesso à comida, e o macaco-prego tenta fazer com que outros ganhem uma recompensa mesmo quando ele mesmo não ganha nada por isso. Demonstramos isso ao colocar dois macacos lado a lado: separados, mas podendo se ver. Um deles precisa negociar conosco nos dando peças de plástico. O teste crítico é quando damos a ele a escolha entre duas peças cujo significado é definido pela cor: uma peça é a ‘egoísta’, a outra é ‘pró-social’. Se o macaco negociador escolhe a peça egoísta, ele recebe um pedaço de maçã em retorno, mas seu parceiro não ganha nada. Com a peça pró-social, ele faz com que os dois recebam a mesma coisa ao mesmo tempo. Os macacos desenvolveram uma grande preferência pela peça pró-social.

Repetimos o procedimento muitas vezes com diferentes pares de macacos e diferentes combinações de peças, e descobrimos que os macacos seguiam escolhendo a opção pró-social. E isso não tinha base em nenhuma preocupação com o que poderia acontecer depois, pois descobrimos que os macacos mais dominantes (os que têm menos a temer) eram os mais generosos. Mais provavelmente, ajudar os outros é recompensador, assim como humanos se sentem bem quando fazem o bem.

Em outros estudos, os primatas adoravam executar uma tarefa em troca de fatias de pepino, até que eles viam outros recebendo uvas, que são muito mais gostosas. Eles começavam a se agitar, jogavam seus pepinos longe e faziam greve. O simples fato de ver um companheiro ganhar uma coisa melhor fez com que o pepino perdesse o gosto. Sempre penso nessa reação quando ouço críticas aos bônus de Wall Street. [lt: o autor não menciona que todos os chimpanzés desses estudos têm suas necessidades básicas satisfeitas, o que não é o caso de todos os norte-americanos].

Você não acha que esses primatas demonstram traços iniciais de ordem moral? Muitas pessoas, no entanto, preferem olhar pra base ‘sangue nos dentes’ deles. Nunca há dúvida alguma sobre a continuidade entre humanos e outros animais quando a questão é o comportamento negativo: quando humanos brigam e matam uns aos outros, os chamamos imediatamente de ‘animais’,  mas preferimos guardar os traços mais nobres para nós mesmos. No entanto, quando a questão é estudar a natureza humana, essa estratégia se mostra ineficaz porque ela exclui quase a metade da nossa bagagem. Sem intervenção divina, esse lado mais atraente do nosso comportamento também é fruto da evolução, e esta visão tem cada vez mais apoio da ciência animal.

Todos conhecem a maneira com que mamíferos reagem às nossas emoções e como reagimos às deles. Isso cria um tipo de ligação que faz com que milhões de nós criem cães e gatos, ao invés de iguanas e tartarugas. Estes são tão fáceis de criar quanto aqueles, mas não têm a mesma empatia que necessitamos tanto.

Há cada vez mais estudos sobre a empatia animal, incluindo estudos sobre como roedores são afetados pela dor de outros. Camundongos de laboratório se tornam mais sensíveis à dor quando vêm outro camundongo sofrer. O contágio de dor acontece entre camundongos que vivem na mesma caixa, mas não entre camundongos que não se conhecem. Esse é um desvio típico, e também acontece com a empatia humana: quanto mais próximos somos de alguém, quanto mais semelhantes somos a eles, mais facilmente a empatia se instala.

A empatia tem suas raízes na mímica corporal básica – e não nas regiões mais superiores da imaginação ou na habilidade em reconstruir conscientemente como nos sentiríamos no lugar do outro. Começou com a sincronização de corpos: correr quando os outros correm; rir quando os outros riem; chorar quando os outros choram; bocejar quando os outros bocejam. A maioria de nós alcançou um estágio tão incrivelmente avançado que bocejamos com a simples menção de bocejar, mas isso só acontece depois de anos e anos de experiência face a face.

O bocejo também é contagiante em outras espécies. Na Universidade de Kyoto, cientistas mostraram vídeos de macacos bocejando a macacos selvagens. Em pouco tempo os chimpanzés do laboratório estavam bocejando como loucos. Com nossos próprios chimpanzés, fomos um passo adiante. Ao invés de mostrar chimpanzés reais a eles, mostramos animações 3D de uma cabeça parecida com a de um macaco se movendo como em um bocejo. Em resposta a esses bocejos de desenho, nossos macacos bocejaram com máxima abertura da boca, fechando os olhos e virando a cabeça, como se fossem cair no sono a qualquer momento.

O contágio do bocejo reflete o poder da sincronia inconsciente, tão enraizada em nós quanto em outros animais. A sincronia se expressa na imitação de pequenos movimentos corporais, tais como o bocejo, mas também acontece em escala maior. Não é difícil perceber sua importância para a sobrevivência. Você faz parte de uma nuvem de pássaros e de repente um deles sai voando. Você não tem tempo de tentar descobrir o que está acontecendo, por isso você decola no mesmo instante. Se não fizer isso, pode virar almoço.

O contágio de humor serve para coordenar atividades, e isso é crucial para qualquer espécie que viaja (assim como a maioria dos primatas). Se os meus companheiros estão se alimentando, eu decido fazer a mesma coisa porque quando eles sairem andando, não terei mais oportunidade para me alimentar. O indivíduo que não se sintoniza com os outros acaba perdendo, igual ao passageiro que não vai ao WC quando o ônibus faz uma parada.

Criaturas sociais

A seleção natural produziu animais altamente sociais e cooperativos que precisam uns dos outros para sobreviver. Quando está sozinho, um lobo não consegue pegar uma presa grande, e é sabido que os chimpanzés na floresta andam mais devagar quando um dos companheiros está machucado ou tem filhotes doentes e por isso não consegue andar no passo normal. Então, por que aceitar essa idéia de natureza assassina quando há tanta prova do contrário?

A biologia mal interpretada exerce uma atração irresistível. Os que pensam que a competição é o único objetivo da vida, e que acreditam que o forte deseja sobreviver fazendo o fraco sofrer, adotam imediatamente o darwinismo como uma linda ilustração de sua ideologia. Eles descrevem a evolução – ou pelo menos a versão resumida que eles têm – como quase paradisíaca. John D Rockefeller concluiu que o crescimento de um grande negócio “é o mero trabalho de uma lei da natureza e uma lei de Deus”, e Lloyd Blankfein, representante e CEO da Goldman Sachs – a maior máquina de fazer dinheiro do mundo – recentemente se descreveu como alguém que “executa a obra de Deus”.

Temos tendência a pensar que a economia foi assassinada pelas decisões arriscadas irresponsáveis, pela falta de regulação ou pelo mercado imobiliário inflacionário, mas o problema é mais embaixo. Esses eram só os aviõezinhos em torno da cabeça do King Kong (“Ah, não, não foram os aviões. Foi a beleza que matou a fera”). A maior culpa é do uso da biologia mal interpretada, que resultou numa simplificação grosseira da natureza humana. A confusão entre como opera a seleção natural e que tipo de criaturas ela produziu levou a uma negação dos laços entre pessoas. A própria sociedade começou a ser vista como uma ilusão. Como declarado por Margaret Thatcher: “não existe sociedade – existem homens e mulheres individuais, e existem famílias”.

Os economistas deviam reler o trabalho de sua figura paterna, Adam Smith, que via a sociedade como uma grande máquina. Suas engrenagens são polidas pela virtude, enquanto que o vício faz com que emperrem. A máquina não vai funcionar direito sem um forte senso de comunidade em cada cidadão. Smith via honestidade, moral, simpatia e justiça como companheiras essenciais da mão invisível do mercado. Sua visão se baseava no fato de sermos uma espécie social, de nascermos em uma comunidade com responsabilidades sobre a comunidade.

Ao invés de cair em idéias falsas sobre a natureza, por que não prestamos atenção no que realmente sabemos sobre a natureza humana e sobre o comportamento de nossos parentes próximos? A mensagem da biologia é que somos animais coletivos: intensamente sociais, interessados na justiça e suficientemente cooperativos para ter tomado controle do mundo. Nossa grande força é precisamente nossa habilidade em superar a competição. Por que não desenhar a sociedade de forma a exprimir essa força em todos os níveis?

Ao invés de colocar os indivíduos uns contra os outros, a sociedade precisa analisar as dependências mútuas. Vimos isso no recente debate sobre saúde nos EUA, em que os políticos jogaram a carta do interesse mútuo, apontando o quanto todos (incluindo os que vão muito bem) perderá se a nação não conseguir mudar o sistema, enquanto o presidente Obama jogava a carta da responsabilidade social, chamando a necessidade de mudança de “obrigação ética e moral fundamental”. Não podemos permitir que ganhar dinheiro se torne a única motivação da sociedade.

E para aqueles que continuam procurando respostas na biologia, a questão fundamental, ainda que raramente levantada, é por que a seleção natural desenhou nossos cérebros de forma  a nos sintonizar com nossos próximos e a nos fazer sentir mal quando eles estão mal, sentir prazer quando eles têm prazer. Se a única prioridade fosse a exploração dos outros, a evolução nunca devia ter se metido com essa história de empatia. Mas ela se meteu, e é melhor que as elites políticas e econômicas se dêem conta disso logo.


Frans de Waal é professor titular de psicologia na Universidade Emory e diretor do Living Links Center no Yerkes National Primate Research Center. Ele é autor de nove livros, incluindo Chimpanzee Politics e Eu Primata (Our Inner Ape). Seu último livro, A Era da Empatia (The Age of Empathy), foi publicado pela Harmony Books.

 

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