Uma cidade feita para os meninos

Título original: “Une ville faite pour les garçons”
https://lejournal.cnrs.fr/billets/une-ville-faite-pour-les-garcons
Autor: Yves Raibaud (geógrafo)
Original publicado em 21/03/2014

(Introdução do site do Jornal do CNRS: “No Top 10 deste verão. Neste texto, o maior sucesso do nosso site, o geógrafo Yves Raibaud afirmava que tudo é feito para favorecer a presença de meninos na cidade, e isso desde a pequena infância.)

Em Paris, Toulouse, Bordeaux e Montpellier, os garotos são os usuários predominantes da cidade. É o que mostram vários estudos que realizamos entre 2010 e 2013(1) a respeito dos recursos públicos culturais ou de lazer para jovens. Esses estudos também expõem uma grande desigualdade na atribuição de recursos pelas coletividades territoriais e pelo Estado com respeito ao lazer dito feminino (ginástica, dança etc.) ou masculinos (skate, futebol etc.). ‘As vezes, essas desigualdades são construídas implicitamente pelos modos de gestão de uma cidade feita “pelos homens e para os homens”. Ao mesmo tempo, as garotas são aconselhadas a não fazer jogging nos lugares isolados, sempre se manter alerta no transporte público e evitar alguns bairros…

O objetivo seria canalizar a violência dos garotos

Nosso primeiro estudo mostra que as garotas a partir da 6a série abandonam as atividades de lazer esportivo, cultural ou geral propostas pelas municipalidades ou associações mandatárias. Enquanto que a oferta de lazer se diz neutra, mas, na realidade, se destina aos garotos (pistas de skate, quadras poliesportivas, atividades ligadas às “culturas urbanas” etc.). Simplesmente porque, mesmo se o futebol e o skate não são reservados aos meninos, é preciso reconhecer que é o uso que consacra uma prática. Para justificar essa desigualdade no financiamento de lazer público, vereadores e responsáveis municipais lembram sempre que seu objetivo principal é de canalizar a violência dos jovens com atividades positivas, sem precisar dizer que os que “causam problemas” são os meninos.

Nossos espaços urbanos são freqüentemente construídos pelos homens e para os homens (Direitos da imagem: APPLY PICTURES/ PLAINPICTURE)

“As meninas preferem ficar em casa”

Essa desigualdade devia aparecer como uma preocupação prioritária se quisermos lutar contra a desigualdade estrutural que ela gera: mulheres menos inseridas na cidade e em seu ambiente social e profissional. Ora, o que nossos estudos apontam como prova de uma enorme injustiça é tratado como “natural” ou “inevitável”. Entrevistas dos funcionários e vereadores ou responsáveis de políticas da juventude mostram como esse fenômeno é constantemente banalizado: “as meninas são mais maduras, sabem encontrar o que fazer, elas preferem ficar em casa”, ou “o mais importante é ocupar os jovens mais difíceis, os que têm problemas de escolaridade, antes que eles entrem numa errada. (2)

O espaço urbano é construído por homens

Outro estudo nosso mostra que essas desigualdades se encontram no modo de gestão da cidade. De fato, a presença de mulheres nos postos importantes é fraca, tanto na câmara de vereadores como nos grupos de pessoas que pensam e constroem a cidade de amanhã: os arquitetos, urbanistas, diretores de serviços e os que desenham os programas urbanos são quase exclusivamente homens. A participação cidadã (conselhos de bairro, pesquisas públicas ou operações de diálogo) é geralmente dominada por homens. Algumas cidades da França organizam “marchas femininas de exploração”, as quais expõem outras visões da cidade, as quais sempre surpreendem por serem radicalmente diferentes do que é geralmente preconizado.

Dizem que basta que as mulheres ocupem a cidade

Nosso estudo em andamento interroga sobre as boas práticas de uma cidade sustentável baseada sobre o ângulo do gênero. Por exemplo, o ciclismo é predominantemente masculino (60% de homens), principalmente quando chove ou à noite (até 80%).

As mulheres têm menos domínio sobre a cidade e as inovações não compensam essa desigualdade

Mais do que isso, andar a pé, dividir o carro e usar o transporte público (freqüentemente riscos de assédio para as meninas e mulheres) também são atitudes tipicamente masculinas. Como resolver isso? Sempre ouvimos dizer que os recursos esportivos são feitos para todos e que basta que as mulheres tenham a iniciativa de usá-los… bom, também diz-se que as mulheres é que têm que se adaptar à cidade, e não que as novas práticas é que têm que se interrogar sobre as discriminações que elas provocam. A constatação, no entanto, concorda com as conclusões anteriores: as mulheres têm menos poder sobre a cidade do que os homens, esse fato nunca é levado em conta e as inovações da cidade não compensam essa desigualdade, longe disso.

Convidamos as cidades a refletir

Preconizamos à instalação de dispositivos de observação e avaliação das políticas públicas sob o ângulo do gênero. Além de realizar contagens sistemáticas de atividades por cada sexo, o “gender budgeting” permite às municipalidades tomarem consciência da injustiça da redistribuição da oferta pública de lazer. Junto com várias coletividades de Bordeaux, conseguimos usar esses números para desenhar dispositivos de apoio ao empoderamento de associações e atividades ditas femininas (independentemente de que atividades são propostas, por princípio). Convidamos as municipalidades a imaginar locais em que adolescentes possam se reunir e que possam ser usados pelas garotas quando forem incomodadas por coletivos de meninos cheios de virilidade, sexismo e homofobia.

Criar um observatório de desigualdades de gênero

Aplicada em campo, a metodologia empregada por nosso laboratório rapidamente ganha operacionalidade. Uma lista de questões ligadas ao gênero (principalmente as discriminações ligadas à identidade e à orientação sexual, fontes de uma importância violência urbana homofóbica) poderia ser compartilhada pelo bias de observatórios de desigualdades de gênero. Assim, os resultados das políticas públicas de habitação, de transporte, de equipamento e reformas seriam constantemente observados. Os ambientes urbanos bem-sucedidos no quesito relações sociais de sexo seriam recompensados com um label, um estímulo para a criação de qualidade, que destacaria as cidades que oferecem um bom coeficiente de convivência nos espaços públicos, dia e noite, e também um alto grau de apropriação dos negócios da cidade por mulheres.

Sobre o mesmo assunto: “As meninas que o lazer público esqueceu” (em Francês)

 

Referências

1. Estudos disponíveis (em Francês) no site da a’urba (agência de urbanismo de Bordeaux): http://www.aurba.org

2. « Le genre, variable centrale de la violence sociale ? », S. Ayral et Y. Raibaud. In :Violences et société. Regards sociologiques, D. Ferrand-Bechmann et A. Ndiaye (dir.), Desclée de Brouwer, 2010, 320 p.

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