Será que o seu cérebro está pronto para a junk food, o pornô e a Internet?

O artigo abaixo contém muitos e muitos links para outros artigos. Estão todos em Inglês. Não li todos, e nem conto traduzir todos! Mas se você achou algo interessante, ou se tem uma tradução a compartilhar, não deixe de escrever um comentário.

Artigo original: Is Your Brain Truly Ready for Junk Food, Porn, or the Internet?

( Do blog Sparring Mind : http://www.sparringmind.com/supernormal-stimuli/ )

Autor: Gregory Ciotti

“O sábio dirige suas paixões, o bobo as obedece.” — Publius Syrus

Por causa do ritmo frenético da tecnologia, temos que julgar se nossos cérebros e corpos têm conseguido se adaptar a todos esses novos estímulos.

Algumas pesquisas sugerem que certas coisas das quais nos aproveitamos hoje em dia deveriam ser classificadas como estímulos supernormais, termo que os biólogos da evolução usam para descrever qualquer estímulo que gera uma resposta mais forte do que o estímulo para a qual evoluíram, mesmo que ele seja artificial — em outras palavras, será que as fontes de “super” estimulação tais como a junk food e o pornô não têm mais chances de nos viciar?

Este é com certeza um assunto muito cabeludo, mas acredito que a questão merece ser investigada.

Afinal, estamos cada vez mais cercados de estímulos que não estavam disponíveis poucos anos atrás, então será que minha mente e meu corpo estão realmente prontos para os nuggets de peixe com gosto de queijo e as atualizações intermináveis das redes sociais?

Antes de entrar nos detalhes das pesquisas, façamos um resumo um pouco mais claro do conceito: o que exatamente é estímulo supernormal?

A brilhante tirinha abaixo explica o básico, e você não vai levar nem dois minutos pra ler.

Fique esperto: Estímulos Supernormais

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Tirinhas: do loucamente talentoso Stuart Mcmillen, publicado com permissão (lt: pelo blog original; o texto traduzido foi adicionado pelo amigo e colaborador Saulo Somavilla). Mais abaixo você pode encontrar mais sobre Stuart e seu trabalho.

Quando a “Super” estimulação dá errado

Nikolaas Tinbergen, etologista ganhador do prêmio Nobel, é o pai do termo estímulo supernormal. Como descrito acima, Tinbergen descobriu com seus experimentos que ele podia criar estímulos “artificiais” que eram mais fortes do que o instinto original, incluindo os seguintes exemplos:

  • Ele fez ovos de gesso pra ver qual deles o pássaro preferia chocar, e descobriu que eles escolhiam os maiores, os que tinham marcas mais definidas, ou cores mais saturadas — o ovo super brilhante com bolinhas pretas era escolhido no lugar do ovo do próprio pássaro, que era azul claro com pintinhas.
  • Ele descobriu que os peixes esgana-gatas, que são muito territoriais, atacariam um peixe de madeira com mais vontade do que um macho de verdade se a barriga do peixe de madeira fosse mais vermelha.
  • Ele fez borboletas de cartolina com marcações mais definidas com as quais as borboletas macho tentavam acasalar, com preferência sobre as fêmeas de verdade.

Num curto intervalo de tempo, Tinbergen conseguiu influenciar o comportamento desses animais com novos “super” estímulos que os atraíam, e eles até preferiam o falso ao verdadeiro.

O instinto comandava, e então passava a ser nocivo à sobrevivência dos animais, pois estes simplesmente não conseguiam dizer não aos falsos estímulos.

Muito do trabalho de Tinbergen foi bem capturado pelo psicólogo de Harvard Deirdre Barret no livro Estimulação Supernormal: Como as necessidades primárias ultrapassaram seu propósito evolutivo (lt: atenção, o título foi traduzido por mim, se uma tradução do livro existe em Português, pode não ter exatamente este título.). É necessário julgarmos se a correlação entre essas descobertas e o comportamento humano é próxima ou não.

O Dr Barret parece pensar que a ligação é mais íntima do que acreditamos, argumentando que a estimulação supernormal governa o comportamento de humanos com tanto poder quanto sobre os animais.

A hipótese é que assim como nas rápidas introduções de estimulação anormal em animais feitas por Tinbergen, o rápido avanço da tecnologia pode ter criado uma situação similar para os humanos — podemos realmente estar “preparados” para algumas de nossas altamente estimulantes experiências modernas, com tão pouco tempo para nos adaptar?

É muito difícil dizer — você pode encontrar argumentos excelentes dos dois lados.

Aqui estão alguns exemplos bem comuns que são questionados:

(Nota: por favor leia o artigo até o final. Não estou dizendo que você não deve nunca entrar em contato com o que vem abaixo, nem que os exemplos são conclusivos, nem que eles sejam “normais”, nada disso! Eles só são citados como curiosidade.)

Junk food

1.) A natureza altamente viciante da junk food é uma das maiores preocupações da nossa geração — a comida é desenhada especificamente para ter mais apelo do que seus correspondentes naturais. É de se admirar que quando a fast food é introduzida em outros países, as pessoas começam a consumir com mais freqüência?

2.) Alguém poderia argumentar que por muito tempo, os humanos tinham fontes de alimentos relativamente estáveis. Agora uma nova “invenção” gastronômica aparece a cada semana. Como isso pode estar nos afetando? Alguns estudos sugerem que comidas como grãos processados apareceram rápido demais e estão bagunçando com nossa mente e nosso corpo.

3.) A comida é uma das coisas mais duras de se resistir pois é uma necessidade absoluta — o problema com a junk food é que ela é uma versão “super-estimulante” de uma recompensa natural que supomos que devemos perseguir. O vício em comida é um problema real, e é um hábito muito difícil de interromper porque os gatilhos estão sempre presentes.

TV e video-games

1.) Se você der uma olhadinha no meu escritório em casa, vai encontrar um Super Nintendo que ainda funciona com o cartucho Chrono Trigger pronto pra ser jogado. Eu não acho que video-games causam comportamentos excessivamente violentos (e as pesquisas concordam), mas tenho que admitir que os video-games podem ser viciantes para algumas pessoas, em particular para certos tipos de personalidade.

2.) O vício em televisão pode dar sinais de vício comportamental em algumas pessoas — os telespectadores muitas vezes ligam a TV para mudar de humor, mas o alívio que obtêm é apenas temporário, e freqüentemente os faz querer mais.

3.) Provavelmente você não vai se surpreender ao ouvir que jogos de computador têm sido ligados a uma forma de fuga, mas o que pode ser que você não saiba é que alguns estudos encontraram sintomas como os da síndrome de abstinência num pequeno grupo de pessoas; elas se tornaram nervosas, agitadas e até tinham sintomas físicos de abstinência.

Pornografia

1.) Provavelmente o mais controverso de todos os estímulos modernos, a pornografia já foi descrita como naturalmente nociva porque ela poderia causar desvios na atividade normal que é o sexo. O pornô já foi ligado a mudanças de gostos sexuais, e alguns dizem que o pornô pode se tornar uma fonte “interminável” de dopamina (mas há poucos estudos conclusivos sobre a mente e a pornografia).

2.) Há uma passagem num romance de Kurt Vonnegut onde um homem mostra a outro a foto de uma mulher de biquíni e pergunta: “Gosta disso, Harry? Esta garota aqui.” E o homem responde: “Isso não é uma garota. É um pedaço de papel”. Quem avisa sobre a natureza viciante do pornô sempre enfatiza que ele não é um vício sexual, é um vício tecnológico. Será que o pornô pode mudar a sua maneira de ver o sexo na realidade?

3.) Já sugeriram que a pornografia bagunça com o “circuito de recompensa” na sexualidade humana —  por que você se dedicaria a encontrar e impressionar um(a) parceiro(a) em potencial, se você pode simplesmente ir pra casa assistir pornô? Isso tem sido apresentado como o início do vício em pornografia, já que a novidade está sempre a um clique de distância, e a novidade está intimamente ligada à natureza altamente viciante da dopamina.

Como explicado num artigo de 2009 da psicóloga Susan Weinschenk, a dopamina não é um neurotransmissor que dá prazer às pessoas, ao invés disso, ele causa um comportamento de busca. “É a dopamina que nos faz querer, desejar, sair pra procurar”, ela escreveu.

É o sistema opióide que dá a sensação de prazer. Ainda assim, “o sistema dopamina é mais forte do que o sistema opióide”, ela explica. “Tendemos a buscar mais do que a estar satisfeitos”.

A internet

1.) Não é de surpreender que os psicólogos de hoje dão muita importância à teia, reconhecendo que ela pode ser muito viciante. Ela permite que a gente se envolva em praticamente qualquer coisa com controle ilimitado, e alguns países tais como o Japão e a Coréia do Sul já tiveram sérios problemas com indivíduos socialmente ineptos que desenvolveram uma obsessão muito doentia pela internet — uma história que eu li detalhava um homem que passou seis meses sem sair de seu apartamento.

2.) Já se mostrou que a mídia social deixa muitas pessoas deprimidas —  elas vêem o que as outras pessoas postam e podem se sentir pior em relação à própria vida. Estes olhares seletivos e muitas vezes enganosos sobre a vida dos outros nunca foram possíveis antes da rede. Por isso, as pessoas não conseguem parar de espiar, pensando que podem estar perdendo algo.

3.) Para algumas pessoas, abusar da internet pode prejudicar a habilidade de concentração. Os rápidos pulsos de diversão que a internet permite, e o fato de que a informação está sempre a um clique, pode (através do abuso) causar uma diminuição do pensamento crítico e conceitual. Já disseram que a internet pode se tornar uma “distração crônica” que acaba lentamente com a sua paciência e com a sua habilidade de pensar e trabalhar em uma coisa só por longos períodos.

O que fazer?

Bom, isso pode ser muito pra absorver de uma vez só.

Antes de entrar em pânico, pirar, jogar fora todos os seus biscoitos Passatempo e cancelar sua assinatura de internet, por favor ouça — tudo em moderação, assim como sua reação à informação deste artigo.

muita pesquisa que contradiz o que você acabou de ver. Leia A Explosão de 10 000 anos se quer ver mais dessa perspectiva. Além do mais, lembre-se que o importante é o uso que você faz dos recursos.

A Internet, por exemplo: é claro que de alguma forma a internet pode se tornar uma distração, mas pense em tudo o que ela trouxe de bom. A web é o melhor recurso no mundo para informação e conhecimento, por isso a maneira dela afetá-lo(a) depende do uso que você faz dela.

Somos todos perfeitamente capazes de usar e nos relacionar com os estímulos supernormais — a única razão pela qual eu escolhi destacar os exemplos acima, que são extremos, foi mostrar como as coisas podem ir mal com o abuso ou o mal uso deles.

É isso mesmo, galera, podem largar as tochas e as foices! Eu não sou o maior inimigo da junk food, da internet e tudo o que é legal. Meu único objetivo com este artigo foi a simples exploração do assunto.

Na verdade, a tirinha lá em cima também teve uma intenção parecida. O artista Stuart McMillen descreve de forma articulada por que você não deve ter tanto medo da informação. Em várias maneiras, você deveria se sentir reconfortado(a):

Em ambos os casos, a principal mudança é a consciência. Consciência de que a única coisa que nos atrai numa sobremesa cremosa é o fato de ela ser mais doce do que qualquer fruta natural.

Consciência de que assistir TV ativa a “resposta de orientação” primitiva, que mantém nossos olhos grudados nas imagens que se mexem como se elas fossem um predador ou uma presa. Consciência de que gostamos de personagens “fofinhos” por causa da nossa necessidade biológica de proteger e nutrir nossos bebês.

Eu não removi nenhum estímulo supernormal da minha vida, e não tenho a menor intenção de fazer isso. O segredo é identificar os estímulos assim que eles aparecem, e fazer um esforço mental para regular ou ignorar a tentação.

Concordo com Deirdre Barrett quando ele diz que às vezes a gente se sente mais recompensada dizendo não ao supernormal do que seguindo o impulso. Só a consciência pode ajudar a impedir que o supernormal se torne “normal” em nossas vidas.

(Hei… você devia se inscrever pra receber a incrível newsletter do Stuart pra saber mais sobre seu novo lançamento em 2014. Também lembre-se de dar uma olhada no site dele pra ver outras tirinhas dele. Ele também vende tirinhas impressas, eu mesmo comprei uma e elas são ótimas. Valem muito mais do que o preço). (Lt: essa propaganda está no artigo original, lembre-se que isto é apenas uma tradução!)

Você decide o que é normal

A “solução”, acho eu, é simplesmente evitar de se acostumar.

O verdadeiro inimigo aqui é a complacência — ou se deixar tornar uma vítima de seus próprios hábitos, ao invés de dirigir a própria vida.

C.S. Lewis tinha alguns pensamentos interessantes sobre isso:

Só aqueles que tentam resistir à tentação sabem como ela é forte.

Afinal, é lutando contra o exército alemão, e não se rendendo a ele, que você descobre sua força. Você descobre a força do vento quando tenta andar contra ele, e não quando se abaixa.

Um homem que cai na tentação após cinco minutos simplesmente não sabe como seria fazer isso uma hora mais tarde.

Minha opinião pessoal é que pequenos retiros são uma ótima forma de testar nossas pequenas dependências em qualquer coisa. Poder partir pra longe pra fazer algo que escolhemos fazer é importante porque põe você de volta no controle.

Deixar de fazer algo por um curto período pode ajudá-lo(a) a entender que lugar aquilo tem na sua vida, especialmente quando se trata de uma atividade opcional. Se você tentar ficar longe de algo por alguns poucos dias, e perceber que começou a ficar ansioso(a) e agitado(a), pode ser que o seu corpo esteja querendo dizer algo importante. Se você consegue parar de uma vez sem problemas, também é importante saber!

Por isso, não, não entre em pânico, nem pire. Apenas reconheça que o seu cérebro pode ser fisgado por muitas das fontes de “super” estimulação que temos hoje em dia, e sua responsabilidade é se manter no controle.

“Aqueles que não se movem não percebem as próprias correntes.” — Rosa de Luxemburgo.

Agora me desculpe, mas eu preciso voltar a perder tempo na Internet 😀

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