As elites francesas têm vergonha da França

Artigo original: Les élites françaises ont honte de la France

http://www.marianne.net/Les-elites-francaises-ont-honte-de-la-France_a235106.html

Entrevistador: Bertrand Rothé

Publicado em 19/01/2014

A antiga diretora da E.N.A. (Escola Nacional de Administração francesa), deputada pelo departamento francês Aisne e pertencente ao grupo socialista, apresenta aqui seu olhar crítico sobre a relação que as classes dominantes francesas mantêm com a nação. De sua presença na política à sua vida com os alunos das grandes écoles, Marie-Françoise Bechtel conta várias histórias edificadoras.

Marie-Françoise Bechtel – BALTEL/SIPA

Marianne: A senhora acaba de afirmar numa entrevista publicada na revista l’Expansion que “uma coisa específica da França é que as elites detestam a nação”. A senhora poderia explicar melhor esse pensamento e dar alguns exemplos?

Marie-Françoise Bechtel: É uma idéia que me persegue faz muito tempo. Lembro de tê-la apoiado pela primeira vez numa entrevista a Joseph Macé-Scaron no Figaro no final de 2000. Eu tinha dito a ele que eu estava muito admirada de ver o quanto as elites inglesas eram orgulhosas de sua nação. Hoje, pra mim, essa constatação é mais do que absoluta e evidente. As elites francesas têm vergonha da França, o que não impede que elas possam ter um comportamento extremamente arrogante, mesmo que isso pareça paradoxal. Cito freqüentemente o exemplo de Jean-Marie Messier. Esse puro produto das elites francesas tinha qualificado os Estados Unidos de “verdadeira pátria de homens de negócios”, e isso logo antes de mudar pra lá. Aqui, a afirmação é perfeita. Todas as elites não são tão claras assim, mas muitas pensam igual.

Isso é só um exemplo!

M.-F.B.: Posso citar dezenas. Vejamos esses dos grandes patrões cujos grupos investem no estrangeiro e que fogem aos impostos na França. Você não pode dizer que são comportamentos patriotas… A empresa Total (letranslator: gigante francesa fornecedora de combustível e energia) quase não paga impostos na França. Claro, em outros países há vários grupos que se comportam da mesma maneira, mas eles sabem estar presentes quando seus países precisam deles. Veja assim a maneira com a qual tratamos as comemorações da guerra de 1914-1918: as elites, inclusive o Partido Socialista, culpam as nações. Esquecemos que os povos não queriam as guerras, e que é a negação da nação que nos arrasta nos dias de hoje em direção a uma Europa que não pára de fazer crescer a extrema direita. Outro exemplo que me foi contado de primeira mão e que ilustra essa mistura de negação e arrogância. Nas negociações européias de 1997 a 1999, em vista da conclusão do Tratado de Nice (letranslator: feito no ano 2001, esse foi o último tratado antes do estabelecimento definitivo da U.E. pelo Tratado de Lisboa em 2007), Pierre Moscovici, que era ministro francês dedicado aos negócios europeus, tinha tratado os países menores com um desprezo inacreditável, cortando a palavra de uns, pedindo que encurtassem seus discursos, exigindo que o representante da Bélgica se calasse. É o mesmo Pierre Moscovici, toda a sua ação o demonstra, que é convencido de que a nação francesa desapareceu, e que nos tornamos uma grande nebulosa liberal e americanizada.

Face a isso, neste período de crise, na França, o povo se volta para a nação, e como proíbe-se a ele de ser orgulhoso de seu país, e que durante um programa de TV explica-se que a França é uma nação em apodrecimento e declínio, acaba tomando o mau caminho, a direção errada. Todos esses homenzinhos jogam o jogo do Front National (letranslator: partido francês de extrema direita).

Mas também é interessante se perguntar quando foi que esse desprezo pela nação começou a se desenvolver nas nossas elites. Acho que uma resposta se encontra nos escritos de Jean-Pierre Chevènement. Ele, acho que pela primeira vez, abordou essa questão no livro A República Contra os Pensadores (“La République contre les bien-pensants”), nos anos 90, e em seguida a desenvolveu em A França Acabou? (“La France est-elle finie?“). Em resumo, ele mostra que esse ódio da França e do povo começou logo após a guerra, e eu concordo. Penso que as elites traíram o povo, que elas se comprometeram com o regime de Vichy (letranslator: presidente francês que apoiou Hitler) e que elas carregam nas costas a derrota de 1939, “a derrota esquisita” (letranslator: isso foi quando a França aceitou a invasão pelos alemães, os franceses entraram pra História como medrosos, mas hoje fala-se de uma concordância velada com o nazismo).  Foi nesse momento que tudo aconteceu. Eu juntei algumas entrevistas com o último membro ainda vivo do CNR (letranslator: Conselho Nacional da Resistência Francesa), Robert Chambeiron, elas serão publicadas em breve, aliás. Ele explica com muita precisão a situação dos partidos políticos em 1940. A situação era catastrófica! Eles não tinham nenhuma legitimidade. Robert Chambeiron conta sobre esse descrédito e sobre a maneira como pouco a pouco os principais partidos foram se reconstituindo e admitindo a necessidade de uma união nacional. Ele conta sobre a primeira conversa entre Daniel Mayer, representante da SFIO, e um enviado do Partido Comunista num mictório público. A abordagem do assunto é violenta. O primeiro envia ao outro os acordos Molotov-Ribbentrop, a aliança entre Stalin e Hitler. O comunista se ofusca e responde: “Como é que o senhor ousa dar lição de moral depois de Munich?” Todo mundo se cagava de medo de Hitler. A sorte dos partidos, é preciso dizer, foram os Estados Unidos. Os americanos desconfiavam de Charles De Gaulle, eles queriam se assegurar do apoio dos partidos e dos sindicatos. Foi Washington que devolveu o poder a eles.

Depois da guerra, a direita teve uma chance com De Gaulle. Ele comprou a direita de volta. É por isso que toda a direita virou gaulista por vários anos. Mas isso acabou…

Se o De Gaulle comprou a direita de volta, quem poderia comprar a esquerda de volta?

M.-F.B.: Boa pergunta, primeiro saber se a esquerda pode ser comprada de volta. Não vejo outra pessoa que pode fazer isso a não ser Jean-Pierre Chevènement. Pierre Mendès France participou do seu jeito e não acho que François Miterrand merece todo o mal que muita gente diz dele. Mas eu não diria que ele comprou a esquerda de volta porque ele fez da Europa o que ela é hoje.

Nenhuma parte de nossas elites agrada a senhora?

M.-F.B.: Eu não tenho a menor admiração pela grande maioria das elites econômicas, mas acho que há exceções. Assim, por exemplo, Jean-Louis Beffa, antigo patrão em Saint-Gobain, me parece ainda ter alguma consciência nacional. Por outro lado, não dá pra ir procurar isso nos bancos. A poupança francesa é enorme, 17 % dos lucros… E o que ela faz? Nada, ou melhor, nada de útil a nosso país. Quanto às elites políticas, eu falo com elas todos os dias, elas sofrem de uma síndrome dupla: de um lado, isso que meu amigo Sami Naïr chama de “bondadismo”, quer dizer, o pensamento virtuoso. Por outro lado, elas são obcecadas pela idéia de que a esquerda não tem legitimidade. Esta, então, tem que ser conveniente e mostrar que é (letranslator: o atual governo francês é o Partido Socialista). Cada vez que uns ministros são atacados pela direita, eles se defendem dizendo que eles respeitam os códigos do mundo liberal. Hoje, apenas Arnaud Montebourg (letranslator: atual ministro do trabalho) como exceção, ainda que haja ministros que trabalhem de forma útil, Michel Sapin por exemplo.

Na mídia também, é meio desastroso. A palavra “nação” arrepia. O jornal Libération permanece o jornal da corrente “liberal-libertadora”, mesmo se ainda solta uma pepita aqui e ali. Le Monde não pára de me decepcionar, começou faz tempo e anda cada vez pior, já não sobra muita coisa desse grande jornal. Le Figaro? Ele se tornou o órgão oficial pra acusar a esquerda no poder e quase nada mais.

E os altos funcionários? Como antiga diretora da ENA e como conselheira de Estado, a senhora conheceu vários deles…

M.-F.B.: Em geral, eles vivem num ideal europeu angélico e virtuoso. Eles repetem que “a Europa é nosso futuro”. Sobre esse assunto, o espírito crítico deles é pouco desenvolvido. Todos eles acham que a França é coisa do passado.

Mas é preciso desconfiar das generalizações. Neste universo, há antes de tudo o Ministério da Economia. O mais importante é o casal Tesouro-Orçamento. É lá que tudo acontece, tudo se decide. É impressionante o poder que eles têm, e eu estou prestando atenção às minhas palavras. Dar tanto poder para o Ministério da Economia é um grave erro. Primeiro, esses senhores não confiam nos políticos. Eles travam tudo. Eu fui membro da comissão de inquérito sobre o caso Cahuzac, e posso dizer que nunca conseguimos nada dos diretores ou responsáveis dessas duas administrações. Nada. Nenhuma resposta! Branco total! Foi impressionante. Mas ao mesmo tempo há diferenças entre as duas. O pessoal do Tesouro passa o dia inteiro no avião, um dia em Cingapura, o outro em Nova Iorque, pra investir dinheiro público. Eles pensam em Inglês. Passado um certo tempo, eles não conhecem mais a França, e ela passa a ser simplesmente o patrão deles. A outra administração de Bercy que conta é o Orçamento, e essa direção estaria mais pra gangrenada pela ideologia alemã, se posso dizer assim. Ela se tornou obcecada pelo equilíbrio de orçamento.

Tirando essas duas administrações, algumas ainda se comportam bem. Penso primeiro à minha origem, o Conselho de Estado. A mais alta jurisdição administrativa francesa resiste às loucuras européias.

Ainda que eu tenha saído de lá, e eu acho uma pena, ela continua sendo uma instância insubstituível. Em seguida, penso nas Préfectures (letranslator: equivalente das secretarias de segurança pública no Brasil). Os préfets (letranslator: seriam os secretários de segurança pública) formam uma instituição que resiste, ao que me parece. Ela resiste primeiro porque é um corpo que representa o Estado e não os campos feudais regionais. Esses altos funcionários estão em contato com a diversidade dos problemas, vivem no interior, vêem os franceses todos os dias. E há também as Forças Armadas. Quando eu era diretora da ENA, encontrava regularmente os dirigentes da Politécnica e de Saint-Cyr. O Exército fez um grande esforço para se abrir à nação, após a infeliz suspensão do serviço militar que o Jacques Chirac impôs.

Mas a senhora tem uma certa responsabilidade nessa história, pois foi a senhora que selecionou as elites e a senhora as formou quando estava na ENA!

M.-F.B.: Há duas coisas que eu preciso explicar primeiro. Como diretor da ENA, você não forma ninguém, são as grandes administrações que escolhem os professores na escola. Por outro lado, era eu que propunha ao ministro os membros do júri, e aliás eu tinha escolhido na época um jornalista da revista Marianne. Dessa forma, nosso finado Philippe Cohen tinha participado à seleção dos futuros altos funcionários. O segundo elemento que o público muitas vezes ignora é que a ENA não funciona como uma escola de aplicação de Ciências Políticas. Não se engane, a grande escola é a de Ciências Políticas. É lá que os estudantes são formados, ou deformados. A Ciências Políticas se tornou “a escola do mercado”, segundo as palavras do próprio Richard Descoings, que a reformatou. Esse homem, muito inteligente e também muito perigoso, estava convencido de que o mercado era a lei e que a lei era o mercado. Ele nem percebeu a chegada da crise, aliás. Mas ele formatou essa escola de uma maneira sem precedentes. A vitória do mercado se mede também porque há cada vez mais alunos de escolas de comércio, principalmente de HEC (letranslator: “altos estudos comerciais” numa tradução bem chula), que entram na ENA, e todo mundo lá jura de pé junto que desde que mamavam no peito sonhavam em servir o país. A conseqüência é dramática, eles recitam discursos decorados. Lembro-me de vários membros do júri me dizerem que esses alunos estavam tão formatados que era difícil, ou mesmo impossível de escolhê-los, pior ainda para classificá-los. E quando eles eram escolhidos, percebi que eu não podia fazer nada pra ajudar pessoas tão — como dizer? — fechadas sobre suas certezas, o que é agravado pela falta de cultura.

De onde pode vir alguma esperança?

M.-F.B.: Eu sou uma pessoa otimista. Veja os alemães. Há uma renovação da língua e, além disso, o orgulho alemão. Dez ou doze anos atrás, fui convidada a um colóquio sobre um tema particularmente interessante hoje em dia: “a Alemanha tem o direito de ter sua própria elite?” A Alemanha, nessa época, estava num buraco, ela não ia bem. Tinha um conselheiro do Gerhard Schröder que era meio que sua cabeça pensante, um homem muito conhecido na época, e eu mostrei pra ele a minha surpresa em ver alemães que  falavam em Inglês sobre o futuro das elites alemãs. Aquilo me parecia muito paradoxal. Bom, nesse dia, nossos anfitriões me falavam de seu sonho: “a senhora se dá conta, pois vocês (franceses) têm uma reunião pública, política, vocês têm a Revolução Francesa atrás de vocês, e isso lhes leva, e nós não temos algo equivalente a isso. Pior ainda, pra nós é difícil fazer referências ao passado”.

Penso também que precisamos de bases sólidas. Somos um país muito grande. Ainda somos a sexta potência mundial. Ainda somos uma grande potência econômica, uma grande potência exportadora, apesar de nosso déficit comercial. Acho que tudo isso aí é muito mal contado. Deveríamos ensinar a nossas elites o respeito dessa história, dessa nação, e ao invés disso ensinamos a eles a arrogância e o desprezo.

Terceiro elemento, e não menos importante: não sei se é a nação ou o Estado quem resiste, mas alguma coisa em nós resiste. Nossas bases, até certo ponto, permanecem sólidas.

Para concluir, com tais afirmações, a senhora não teme se juntar aos intelectuais e políticos que foram qualificados de “neo-bobos” pelo periódico Le Point? Cuidado, a senhora pode acabar se juntando a Marine Le Pen… (letranslator: Marine Le Pen é a presidente do partido de extrema direita Front National). 

M.-F.B.: Esqueçamos esse inventário ridículo do Point. Acho que se houvéssemos escutado melhor Jean-Pierre Chevènement, ou melhor, si o tivéssemos elegido em 2002, veríamos hoje qual é a diferença entre uma concepção aberta, generosa e patriota da nação; e essa fuga medrosa, pra não dizer infantil, com valores regressivos. O problema hoje é fazer os franceses entenderem que uma nação bem entendida é fonte de modernidade, não de fuga: mas como fazê-los entender, quando, tanto à esquerda como à direita, a Europa tal como ela evolui se tornou “a grande ilusão”?

Biografia resumida

Marie-Françoise Bechtel foi diretora da ENA de 2000 a 2002. Ela é hoje deputada da quarta circunscrição do Aisne, membro do Movimento Republicado e Cidadão, aparentado ao grupo socialista. Ela é vice-presidente da Comissão de Leis da Assembléia Nacional. Mas ela também é um exemplo da eficácia do sistema escolar republicano. Filha de professores, ela é autoridade em Filosofia e conselheira de Estado. 

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