Discurso de honra

Tim Minchin é um músico britânico e australiano. Formado pela University of West Australia em 1998, ele voltou este ano para fazer o discurso de formatura. Além da filmagem abaixo, ele também disponibilizou o texto do discurso:

Texto original: http://www.timminchin.com/2013/09/25/occasional-address/

Publicado em: 25 de setembro de 2013

Autor: Tim Minchin

Oi. Eu fiz um discurso numa cerimônia de formatura na minha antiga facu, A University of Western Australia. Aqui está o vídeo. O texto está aí embaixo, espero que alguma coisa o(a) agrade.

“Em dias mais difíceis, eu fiz uma apresentação numa conferência pra uma grande empresa que desenvolvia e vendia programas de contabilidade. Acho que era uma tentativa de inspirar o pessoal de vendas para que fossem mais ambiciosos, eles pagaram 12 mil pra um orador, este esportista radical aqui, que já teve uns membros congelados quando ficou preso numa fenda na montanha. Foi sinistro. Os vendedores de programa deviam ouvir alguém que tivesse tido uma carreira bem longa, feliz e bem-sucedida em vendas de programas, e não um ex-alpinista super-otimista. Pobre do cara que chegou de manhã achando que ia aprender alguma coisa sobre técnica de vendas e acabou voltando pra casa preocupado com a circulação sangüínea das extremidades do corpo. Isso não dá inspiração — dá confusão.

E se a montanha fosse um símbolo dos desafios da vida, e se a perda de membros fosse uma metáfora pro sacrifício, um vendedor de programas nunca ia entender, não é mesmo? Por acaso ele tem diploma de artes?  Pois deveria ter. Diplomas de artes são da hora. Eles ajudam a gente a encontrar um sentido onde não há sentido algum. E olha, eu garanto, não há sentido algum. Não procure por ele. Procurar sentido na vida é como procurar rima num livro de receitas: você não vai achar, e ainda vai queimar o suflê.

Como eu disse antes, eu não sou um orador que dá inspiração. Eu nunca perdi um membro na montanha, nem metaforicamente. E com certeza não vim aqui dar conselho de carreira, porque… bom, eu nunca realmente tive o que a maioria chama de emprego decente.

Mas já faz alguns anos que muita gente escuta o que eu digo, e por isso me acho importante. Portanto, agora, na madura idade de 38 anos, eu vou dar a vocês nove lições de vida. Isso é pra imitar as nove lições e cânticos tradicionais de Natal, que eu também acho meio difíceis de entender.

Este discurso, você vai achar meio inspirador, meio chato em parte, e com certeza daqui a uma semana você vai ter esquecido tudo. Mas esteja avisado de que vai ter um monte de duplo sentido, e umas frasezinhas que começam bem, mas terminam completamente nada a ver.

Por isso preste atenção! Ou você vai ficar mais perdido do que o cego que entrou na farmácia batendo palmas pra tentar localizar líquido de lente de contato pelo eco.

Aí vai:

1. Você não precisa ter um sonho

Esses americanos em shows de talentos sempre falam de sonhos. Tudo bem, se você tem algo pelo qual sempre sonhou, tipo, no seu coração, vai atrás! Afinal de contas, o importante é o seu tempo pra correr atrás do sonho. E se o sonho for grande o bastante, você vai levar a maior parte da sua vida pra conseguir, e quando finalmente você conseguir e estiver lá, olhando pro abismo da falta de sentido da sua conquista, você estará quase morto, quer dizer que não vai ter mais importância.

Eu nunca tive esses grandes sonhos. E por isso me dedico com paixão à busca de objetivos de curto prazo. Seja micro-ambicioso. Baixe a cabeça e trabalhe com orgulho nisso que está na sua frente. Você nunca sabe onde vai terminar. Mas fique sabendo que o próximo objetivo que vale a pena vai provavelmente aparecer na sua visão periférica. É por isso que você deve ter cuidado com sonhos de longo prazo. Se você olhar só pro horizonte lá longe, você não vai ver as coisas interessantes que aparecem no cantinho do seu campo de visão. Certo? Beleza. Conselho. Metáfora. Olha isso, tá funcionando.

2. Não procure felicidade

Felicidade é que nem orgasmo: se você pensar muito nele, ele desaparece. Esteja sempre ocupado e tente fazer alguém feliz, pode ser que sobre um pouco de felicidade pra você como efeito colateral. Nós não evoluímos para estarmos sempre contentes. Os Australophithecus afarensis que estavam sempre contentes foram comidos antes de passarem seus genes pra frente.

3. Lembre-se: tudo é uma questão de sorte

Você tem sorte de estar aqui. Você tem uma sorte imensa de ter nascido, e maior ainda de ter sido educado por uma família legal, que te ajudou a estudar e a ir pra facu. Ou então, se você nasceu numa família horrível, isso foi falta de sorte, eu tenho pena de você… mas mesmo assim você teve sorte: sorte porque por acaso você foi feito por um tipo de DNA que fez um tipo de cérebro que, depois de submetido a uma infância horrível, tomou decisões que fizeram com que você, no final, se formasse na facu. Parabéns, você se puxou pra cima pelo cordão do sapato, mas você teve sorte. Você não criou a parte de você que o puxou pra cima. Nem o cordão do sapato, não foi você quem fez.

Eu suponho que trabalhei duro pra conseguir o pouco que consegui… mas eu não fiz a parte de mim que trabalha duro, assim como também não fiz a parte de mim que saía pra comer hambúrguer ao invés de assistir aos seminários quando eu estava aqui na UWA.

Quando você entender que você não pode realmente assumir a autoria dos seus sucessos, e nem realmente culpar os outros por seus erros, você será mais humilde e mais humano.

Empatia é algo intuitivo, mas você também pode trabalhá-la racionalmente.

4. Faça exercícios

Que me perdoem os alunos de filosofia, esses fumantes pálidos e flácidos, que se escandalizam com a multidão que passa sua existência se exercitando. Você está errado, eles estão certos. Bom, você está meio certo: você pensa, logo você existe… mas também: você corre, logo você dorme bem, logo você não se deixa contaminar pela angústia existencial. Você não pode ser Kant, e você nem quer ser.

Pratique esportes, faça yoga, puxe ferro, corra… qualquer coisa… mas tome cuidado do seu corpo. Você vai precisar dele. A maioria de vocês vai viver até quase cem anos, e mesmo o mais pobre entre vocês vai ter um nível de renda que a maioria dos humanos na História nunca pôde sonhar. E essa vida longa e luxuriosa que o espera vai dexá-lo deprimido!

Mas não se desespere! A depressão é inversamente proporcional ao exercício. Vão lá, corram meus lindos intelectuais, corram. E não fumem. Eca.

5. Seja firme em suas opiniões

Um famoso ditado diz que opinião é que nem cu, cada um tem a sua. É um ditado muito sábio… mas eu gostaria de acrescentar que existe uma diferença muito grande entre o cu e a opinião, porque suas opiniões devem ser constantemente e profundamente examinadas.

É preciso pensar de maneira crítica, e não apenas sobre as idéias dos outros. Seja firme com suas crenças. Leve-as à varanda para que sejam espancadas com tacos de baseball.

Seja intelectualmente rigoroso. Identifique suas distorções, seus preconceitos, seus privilégios.

A maioria dos argumentos da sociedade sobrevivem porque as nuances são ignoradas. Tendemos a gerar falsas dicotomias, e daí rebatemos o argumento do outro assumindo verdades completamente diferentes, como dois jogadores de tênis tentando ganhar o jogo fazendo rebatidas geniais, mas cada um numa quadra distinta.

Falando nisso, aproveitando que há formandos de ciências e de artes na minha frente: por favor, não pensem que artes e ciências são contrárias umas às outras. Essa é uma idéia recente, ela é estúpida e tóxica. Você não precisa ser anti-ciência pra fazer boa arte, escrever coisas bonitas.

Quer prova? Twain, Adams, Vonnegut, McEwen, Sagan, Shakespeare, Dickens. Só pra começar.

Você não precisa ser supersticioso pra ser um poeta. Você não precisa odiar a tecnologia da GM pra se preocupar com a beleza do planeta. Você não precisa apelar para a existência da alma pra promover paixão.

A ciência não é um corpo de conhecimento, nem um sistema de crenças; é só um termo que descreve o quanto a humanidade acumula compreensão através da observação. Ciência é animal.

As artes e as ciências precisam trabalhar juntas para melhorar a comunicação de conhecimento. Muitos australianos — inclusive nosso novo primeiro-ministro e meu primo Nick — acreditam que a ciência do aquecimento global causado pelo homem é controversa. Isso indica o quanto somos incompetentes em nos comunicar. O fato de que 30% desta sala acabou de bufar indica mais ainda. O fato de que essa bufada tem mais a ver com política do que com ciência é ainda mais desesperador.

6. Seja um professor

Por favor! Por favor seja um professor. Professores são as pessoas mais admiráveis e importantes do mundo. Você não precisa fazer isso pra sempre, mas se você tem dúvidas sobre o que fazer, seja um professor incrível. Só até os seus trinta anos. Seja um professor de escola primária. Especialmente se você é homem – precisamos de mais professores homens nas escolas primárias. Mesmo se você não for um professor, seja um professor. Compartilhe suas idéias. Não ache que sua educação é a melhor. Aproveite o que você aprende, e espalhe por aí.

7. Defina-se pelo que você ama

Eu me surpreendi fazendo isso recentemente, alguém me perguntou que tipo de música eu gosto, eu disse “bom, eu não escuto rádio porque letra de música pop me irrita”. Ou então alguém me perguntou que tipo de comida eu gosto, e eu disse “Acho que andam usando demais a essência de trufas, é meio desagradável”. E na internet eu vejo isso o tempo todo, gente que acha que fazer parte de uma subcultura é odiar Coldplay ou futebol ou feministas ou o Partido Liberal. Temos tendência a nos definir contra as coisas; na minha condição de ator, eu acabo vivendo disso. Mas tente também expressar sua paixão por coisas que você ama. Demonstre seu prazer e seja generoso para com aqueles que você admira. Envie cartões de agradecimento e aplauda de pé. Seja pró- coisas, não somente anti- coisas.

8. Respeite quem tem menos poder que você

No passado, eu já tive que tomar decisões importantes sobre as pessoas com quem trabalho — agentes e produtores — baseado muito na maneira com que tratavam o garçom no restaurante. Eu não ligo se você é o cachorrão mais poderoso da sala, vou julgá-lo de acordo como você trata o menos poderoso. É assim.

9. Não se apresse

Você não precisar saber agora o que vai fazer o resto da vida. Não estou dizendo pra você sentar e fumar um fino o dia inteiro, só não precisa entrar em pânico. A maioria das pessoas que conheço que tinham planejado suas carreiras aos vinte anos de idade está tento crise de meia idade agora.

No começo desse blá-blá-blá eu disse que a vida não tem sentido. Não era só pra chocar. Eu acho absurdo: a idéia de procurar “significado” nesse conjunto de circunstâncias que foi gerado por 13,8 bilhões de anos de eventos aleatórios. Deixe os humanos pensarem que o universo tem um propósito pra eles. Mas eu não sou um niilista. Também não sou cínico. Na verdade, sou até romântico. E aqui vai minha idéia de romance:

Logo você estará morto. A vida às vezes vai parecer longa e dura e, meu, como cansa. ‘As vezes você vai  estar feliz, outras vezes triste. Daí vai ficar velho. Daí vai morrer.

Só tem uma coisa adequada a fazer com essa existência vazia: preenchê-la.

E na minha opinião (até que mude), o melhor jeito de preencher a vida é aprender o máximo possível sobre o maior número possível de coisas, sendo orgulhoso no que quer que seja que você esteja fazendo, sendo apaixonado, compartilhando idéias, correndo(!), sendo entusiasta. E daí há amor, viagens, vinho, sexo, arte, crianças, doação, escaladas de montanha… mas você já sabe tudo isso.

Essa vida sem sentido que você tem é incrivelmente excitante. Boa sorte.

Obrigado por me agüentar.

Tradução: letranslator.wordpress.com

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One thought on “Discurso de honra

  1. Pingback: A varanda | leconnector

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